Reflexões sobre taxas de juros negativas.
Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2020, o presidente Donald Trump disse que o FED deveria reduzir as taxas de juros básicas da economia para tornar os EUA competitivos com outros países que já praticam taxas negativas. Cerca de US$ 17 trilhões em títulos de dívida (maior parte emitidos por governos) têm taxas negativas (negative yield), representando cerca de 20% do mercado global de bonds; ou seja, os investidores recebem menos dinheiro do que investiram nesses títulos. A princípio pode parecer interessante, mas tem lá seus problemas. *** É difícil imaginar taxas de juros negativas. O mundo econômico é regido por preferência temporal e avaliação de risco e retorno (o retorno deve ser de acordo com o risco). Preferimos R$100,00 hoje do que os mesmos R$ 100,00 em um ano. Assim, quem pega dinheiro emprestado precisa remunerar quem emprestou o dinheiro pelo risco e pelo tempo (duas noções profundamente conectadas, claro). Isso vale para o mercado investidor: se eu invisto em uma ação ou em um título, espero ser remunerada de acordo com o risco. Há modelos matemáticos bastante sofisticados para se calcular as taxas esperadas para a remuneração de um determinado investimento, considerando o retorno ajustado ao risco. Segundo Warren Buffet, as taxas de juros funcionam para a economia como a gravidade funciona para nós. Sem elas, os preços dos ativos seriam maiores. A taxa de juros básica da economia é um elemento importante para os cálculos das taxas de juros/desconto/retorno esperadas no mundo financeiro. Ou seja, a taxa de juros básicas da economia é a referência para os demais cálculos de taxas esperadas. Até 2012 a regra geral era considerar que o limite inferior para as taxas de juros era zero. Em julho de 2012, entretanto, algo inusitado aconteceu: o banco central da Dinamarca estabeleceu que a taxa de juros sobre certificados de depósitos bancários passou a ser -0,20% aa, entrando em terreno de juros negativos. Esse movimento foi seguido pelo European Central Bank (ECB) em junho de 2014, Suíça em 2014, Suécia em 2015 e Japão em 2016. Esse movimento acontece para tentar estimular economias que não crescem, ainda sofrendo efeitos da crise de 2008. Quando apenas reduzir as taxas de juros não funcionou, esses bancos centrais inovaram entrando em taxas negativas, com o objetivo de dar um boost no crescimento econômico ao penalizar a poupança e incentivar o consumo e investimentos. Em alguns casos localizados, os clientes dos bancos “recebem” taxas de juros negativas. Mas é bom lembrar que essas são as taxas que influenciam toda a economia; funcionam como o ponto de partida sobre a qual os spreads são adicionados. Além do mercado bancário, as taxas negativas têm impactado o mercado de renda fixa. Quem conviveu com décadas de altas taxas de juros aqui no Brasil talvez sonhe com taxas de juros negativas. Mas elas invertem completamente a lógica econômica. Seus efeitos de longo prazo na economia ainda precisam ser avaliados. Alguns dos riscos envolvendo a persistência desse fenômeno são: Quando há crises econômicas graves, em média os bancos centrais reduzem as taxas de juros de 3 a 6 pontos percentuais. O problema é que após a crise de 2008 poucos países hoje têm espaço para uma redução desse nível sem entrar em taxas negativas. Esse gráfico do FMI a seguir aponta que, no exemplo dos países analisados, apenas Turquia, México e Islândia têm algum espaço para isso: Fig: Taxas de juros, em %, 2017. (Fonte: FMI) A crise econômica associada ao coronavirus talvez vá demandar reduções adicionais de taxas de juros em algumas economias. O FED, por exemplo, reduziu 0,5 ponto percentual no começo de março, mantendo as taxas na faixa de 1% a 1,25% aa já prevendo o impacto do vírus na economia. Um cenário com mais países com taxas de juros negativas representa volatilidade adicional na economia global. Para saber mais: https://www6.royalbank.com/assets/di-secure/images/article/investing-academy/2020/economic-compass-low-rates.pdf
Qual o futuro da intermediação financeira no Brasil?
(Continuação da reflexão iniciada aqui: https://the-nestegg.com/2019/11/27/inovacao-tecnologica-mercado-bancario-sustentabilidade/) *** Se você acompanhou os resultados financeiros dos bancos em 2019, percebeu que apesar da situação macroeconômica difícil no país, os bancos continuam lucrativos, com resultados “recorde”, segundo essa reportagem do Valor. https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/14/lucro-de-bancos-e-recorde-mas-deve-desacelerar-em-2020.ghtml. Mas o futuro do mercado bancário terá novidades, já que o mercado bancário global passa por uma transição, em função, entre outras coisas, do processo de transformação digital. E como essas novidades afetarão as atividades de intermediação financeira e o desempenho dos bancos, não se sabe ainda. Historicamente, o sistema financeiro sempre investiu bastante em tecnologia; é, na verdade, um setor bem tecnológico, principalmente o brasileiro. Isso não é novidade. No Brasil, a novidade está na implementação do ecossistema de pagamentos instantâneos e no open banking, nas fintechs. Em 2015 a quantidade de fintechs no Brasil era 56; em 2019, mais de 550. O sistema bancário vai enfrentar o que outros setores como indústria, hotelaria, mobilidade urbana, cinema, literatura, música já enfrentam. A questão é que a transformação digital no sistema financeiro (SF) tem caráter distinto dos outros setores, porque o SF diz respeito ao dinheiro que circula na sociedade e mudanças ali repercutem de maneira amplificada na sociedade. Basta pensar nos impactos sociais de crises financeiras. Quando se analisa o SF brasileiro, é importante considerar não apenas a lucratividade e rentabilidade, mas também solvência e liquidez. O sistema brasileiro tem níveis de solvência (Índice de Capital Principal, Risk-Weighted Assets) e liquidez superiores aos requerimentos legais. Os testes de resiliência (testes de estresse) apontam que o nosso sistema tem capacidade de absorção de perdas em cenários macroeconômicos adversos. É um setor “confortável” do ponto de vista do risco sistêmico para a sociedade. Isso é uma boa notícia e uma razão importante que explica por que o nosso sistema não sofreu perdas significativas com a crise de 2008. Para quem se preocupa com questões socioambientais, o nosso sistema tem regulações, autorregulação e acordos voluntários para incorporar esses aspectos nas decisões de crédito. Por outro lado, globalmente o crescimento em capitalização de mercado dos ativos ligados a crypto moedas, principalmente bitcoin, levanta preocupações dos reguladores quanto à estabilidade e resiliência dos sistemas financeiros. Esses ativos caracterizam-se por alta volatilidade, alta tecnologia embarcada, anonimidade. Nos últimos anos, plataformas para trading de crypto ativos foram hackeadas e os ativos dos clientes roubados. Esses incidentes levaram a perdas de centenas de milhões de dólares para investidores e provedores dessas plataformas. Há risco de fraude, uso desses ativos para lavagem de dinheiro, financiamento de práticas criminosas de terrorismo etc. A transformação digital vai muito além do que os crypto ativos, claro. Embora o processo de transformação digital seja irrefreável é interessante analisar suas implicações positivas e negativas para a sociedade. Mas no Brasil os desafios de maior acesso a crédito e de aumento da concorrência permanecem. O último Relatório de Estabilidade Financeira (REF, out de 2019) aponta que houve avanço na concessão de crédito para PMEs, enquanto a tendência das grandes empresas tem sido buscar o mercado de capitais para se financiar. O financiamento às pessoas físicas aumentou principalmente com relação às modalidades relacionadas ao consumo, como financiamento pessoal e de veículos. Para os bancos, de maneira geral, o financiamento às pessoas físicas e PME é mais rentável que às grandes empresas, porque os spreads bancários são maiores. As fintechs surgem também para dinamizar o mercado de acesso a crédito, reduzindo os custos de transação. A tecnologia tem vida própria e é uma resposta à busca de soluções de problemas reais enfrentados pela sociedade. A ebulição pela qual passa setor não tem apenas competição entre líderes e novos entrantes; tem colaboração também. Os grandes bancos têm investido em iniciativas digitais e no ecossistema de inovação, em parceria com startups. O Banco Central implantou o LIFT, Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas. “O futuro não é mais como era antigamente”, como diria Renato Russo. O futuro da intermediação financeira no Brasil e no mundo é ainda desconhecido. Há muita discussão na academia e nos fóruns internacionais, como FMI e BIS, de como essa transformação digital impactará o acesso crédito, a resiliência dos sistemas financeiros e o escopo e o papel da supervisão bancária. E eu adiciono: quais seus impactos potenciais sobre questões socioambientais. Para saber mais: https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/14/lucro-de-bancos-e-recorde-mas-deve-desacelerar-em-2020.ghtml
Inovação Tecnológica, Mercado Bancário & Sustentabilidade
Em entrevista para o Estadão de 25/11/2019, o diretor do Banco Central (Bacen) João Manoel Pinho de Mello indica elementos em análise pelo banco para aumentar a competição no sistema financeiro com o objetivo de reduzir o spread bancário. O interessante é que várias dessas medidas refletem inovação tecnológica, inclusive as já sendo utilizadas por fintechs para ganho de eficiência e prestação de serviços financeiros. O World Economic Forum (WEF) estima que globalmente 2 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços financeiros de alta qualidade e a preços acessíveis. E estima que o mesmo aconteça com 200 milhões de micro e pequenas empresas, cujas necessidades financeiras não atendidas excedem US$ 2 trilhões. Atender à essa demanda crescente é fundamental para gerar crescimento, desenvolvimento econômico e estabilidade financeira. Tem também efeito importante sobre redução de pobreza e desigualdades. Mas pelo que se observa, parte dessa necessidade será atendida por novos entrantes, atores bem diferentes dos tradicionais bancos. Esses novos atores (alguns não tão novos assim) são e serão bancos “sombra” (aqueles que não têm depósito bancário) e fintechs, especialmente as que viabilizam peer-to-peer (P2P; intermediação de empréstimos diretos a pessoas) e business-to-business lending (B2B; intermediação de empréstimos para negócios). O open banking viabiliza essa revolução na intermediação financeira. Eu acredito que o mundo financeiro que teremos daqui a alguns anos será bem diferente do que temos hoje porque essas inovações são disruptivas em relação ao sistema atual. Outra discussão importante conectada à essa agenda é a cashless society, que é a transição para uma sociedade que usa prioritariamente pagamentos digitais. As implicações para estabilidade financeira e o papel dos bancos centrais não são triviais, para nem começar a discussão de seus impactos sobre a privacidade individual. Revoluções tecnológicas resultam em novos arranjos econômicos e produtivos adotados em grande escala, levando a um salto de desenvolvimento. Esse processo acontece em razão do surgimento de novos produtos e indústrias, de tal maneira que os impactos do breakthrough tecnológico têm alcance maior que os setores que o originaram, levando a aumento de produtividade em praticamente todas as atividades econômicas. Por essa razão, tecnologia e inovação têm impactos relevantes no crescimento econômico e bem-estar social. Mas e os aspectos socioambientais dessa revolução, em especial no setor bancário? A agenda de sustentabilidade no mercado de crédito bancário (ou ASG – ambiental, social e governança) vem avançando desde os anos 2000. Há muito o que avançar, claro, mas muito se avançou. O Know Your Customer (KYC), por exemplo. Trata-se de uma medida de compliance desenvolvida para evitar lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo. No Brasil, os requerimentos do KYC recaem sobre as instituições supervisionadas pelo Banco Central. No Brasil também tem havido avanços importantes na regulação de aspectos socioambientais no mercado de crédito, como as Resoluções 4.327/14 e 4.557/17 e a Circulares 3.846/17 e 3.907/2018 do Conselho Monetário Nacional e Bacen. Do ponto de vista da autorregulação, há a Norma SARB 014/14 e demandas sobre os bancos para maior transparência quanto a aspectos ASG, como os relatórios GRI, relato integrado, aderência à Força Tarefa de reporte e transparência em relação às mudanças climáticas (TCFD), Princípios do Equador, entre tantas outras. As preocupações com aspectos ambientais, sociais e de governança vinham em um crescente nos mercados bancários global e brasileiro. Porém, os processos de avaliação dos riscos e das oportunidades ASG nos negócios adquirem, nesse novo contexto tecnológico, contornos muito diferentes. O caminho para o desenvolvimento sustentável pode ser fortalecido com as novas tecnologias, mas surgem novos riscos que não devem ser excluídos do radar da sociedade. Para saber mais: Entrevista do Diretor do Bacen para o Estadão: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,agenda-para-baratear-credito-inclui-zap-de-pagamento-sem-dinheiro-ou-cartao-diz-diretor-do-bc,70003101948 Artigo que eu e Regina Magalhães escrevemos para a GV Executivo sobre a Quarta Revolução Industrial e a Sustentabilidade: https://rae.fgv.br/sites/rae.fgv.br/files/gv_v17n1_ar3.pdf Mais um texto do blog sobre esse tema: Sustentabilidade e a destruição criativa. World Economic Forum no tema: https://www.weforum.org/projects/the-future-of-automation-in-the-financial-and-monetary-system
Restauração ecológica no Brasil e seus desafios.
Nessa semana foi lançado o relatório com os dados do Global Forest Watch (https://blog.globalforestwatch.org/data-and-research/mundo-perde-area-do-tamanho-da-belgica-em-florestas-tropicais-primarias-em-2018) apontando que os trópicos perderam 12 milhões de hectares de cobertura florestal em 2018. Um destaque ruim foi o desaparecimento de 3,6 milhões de hectares de florestas tropicais primárias. Brasil, Congo e Indonésia lideram o ranking de desmatamento de florestas primárias, seguidos por Colômbia e Bolívia. São tristes notícias. Frente aos desafios trazidos pela mudança do clima e a oportunidade de o Brasil obter vantagem comparativa como país líder em sustentabilidade (se fizer sua lição de casa, claro), fica evidente a necessidade de avançarmos na proteção de florestas e áreas com cobertura vegetal e restaurar áreas que foram convertidas em outros usos. Não basta atuarmos para evitar o desmatamento, é preciso restaurar a paisagem. Entretanto, esse não é um desafio trivial, especialmente em um país como o Brasil. Um grupo de pesquisadores do qual fiz parte (liderado pela Profa. Mercedes Bustamante e pelo Prof. Salomão, ambos da UNB) acabou de publicar um artigo na revista acadêmica “Mitigation and Adaptation Strategies for Global Change”( https://rdcu.be/byQEd ) em que se discute os fatores críticos para que os programas de restauração ecológica seja bem-sucedidos no Brasil. O artigo discute em profundidade os seguintes fatores: É a academia procurando dar sua contribuição para um tema de grande importância para o Brasil.
A Tale of Two Proposals: política americana e mudança do clima.
As discussões políticas sobre mudanças do clima nos EUA já começaram quentes em 2019 (perdão pelo trocadilho!). Acompanhar essa discussão nos Estados Unidos é importante porque: (i) trata-se do segundo maior emissor global de gases de efeito estufa; (ii) tem um presidente que não é amigável ao tema (apesar de empresas e estados terem adotado políticas para redução de emissões como mencionei aqui e aqui); e (iii) parece que a agenda do clima estará presente com força na campanha presidencial de 2020 (veremos). *** Em janeiro desse ano, em um anúncio no Wall Street Journal https://www.wsj.com/articles/economists-statement-on-carbon-dividends-11547682910 3.333 economistas americanos, 4 ex-presidentes do Banco Central Americano, 27 prêmios Nobel em Economia, 15 ex-presidentes do Council of Economic Advisors e 2 ex-secretários do Treasury americano manifestaram apoio ao plano chamado de “Carbon Dividends” que apresentei sucintamente aqui e aqui. Eu fico imaginando como seria uma reunião desse grupo! Entre os nomes de peso que assinam o manifesto estão Oliver Hart, Greenspan, Eric Maskin, Sharpe, Robert Shiller, Solow, Thaler, Paulo Volcker, Janet Yellen. Sem dúvida nenhuma a proposta do “Carbon Dividends” vem ganhando momentum por ser bi-partidária, agregando republicanos e democratas, mas com importante apoio de lideranças republicanas. Uma outra proposta Em 07 de fevereiro desse ano uma outra proposta ganhou os holofotes: o lançamento de uma Resolução chamada de “Green New Deal”, elaborada pela nova estrela do partido democrata, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (representante do estado de Nova York) e pelo senador por Massachusetts, Ed Marke. A Resolução foi apoiada fortemente pelos possíveis candidatos democratas à nominação para a Presidência da República em 2020: Elizabeth Warren, Cory Booker, Kirsten Gillibrand e Kamala Harris. Mas do que trata essa Resolução? A Resolução propõe uma mobilização nacional por dez anos e tem cinco macro objetivos: Ao ler a Resolução (https://ocasio-cortez.house.gov/sites/ocasio-cortez.house.gov/files/Resolution%20on%20a%20Green%20New%20Deal.pdf) percebe-se que se trata de uma carta de intenções com nada de aspectos concretos e práticos. Por se tratar de uma proposta do Partido Democrata e por ter sido chamada de “New Deal” a Resolução lista o possível papel do governo na transição para a economia de baixo carbono e não discute a contribuição privada nessa transição. Tampouco discute como viabilizar economicamente os elementos apresentados no documento. Na Resolução constam aspectos que vão muito além de questões ambientais e climáticas. Por exemplo: “strengthening and enforcing labor, workplace health and safety, antidiscrimination, and wage and hour standards across all employers, industries, and sectors;” (Pg 12, linhas 20 a 23) “to stop the transfer of jobs and pollution overseas; and (ii) to grow domestic manufacturing in the United States;” (Pg. 13, linhas 3 a 6) “ensuring a commercial environment where every businessperson is free from unfair competition and domination by domestic or international monopolies; and providing all people of the United States with (i) high-quality health care; (ii) affordable, safe, and adequate housing; (iii) economic security; and (iv) clean water, clean air, healthy and affordable food, and access to nature.” (Pgs 13 e 14, linhas 10 a 25 e 1 a 3, respectivamente). Como se pode ver, a Resolução traz elementos que envolvem justiça social e racial, política sindical, entre outros aspectos. Trata-se de uma carta de intenções com tudo que seria desejável. Cabe destacar que não tem força de lei e se fosse aprovada seria non-binding. Assim, me parece que esse documento é mais uma peça de comunicação, de relações públicas que uma tentativa séria de lidar com o problema das mudanças do clima. Não há nenhuma consideração sobre como se pagaria por esses desejos. Na lista de FAQs da Resolução consta que um tributo sobre carbono estaria “off the table” a não ser que estejam primeiro disponíveis ao grande público opções limpas e viáveis para que as pessoas optem pelo baixo carbono. Como viabilizar a existência dessas opções? Com dinheiro do contribuinte, ou seja, aumentando o papel do governo na economia. Fiquei atônita com a seguinte frase: “so the question isn’t how will we pay for it, but what will we do with our new shared prosperity.” (FAQ, pg 3). Sobre um mercado de cap and trade, no FAQ fica claro que não se contará com mercados para viabilizar essa transição. Confesso que eu fiquei chocada com a superficialidade e quase irresponsabilidade com que o tema seriíssimo das mudanças do clima foi tratado na Resolução. Eu só espero que as pessoas na política americana que levam o tema a sério – e são muitas, felizmente – possam elevar a conversa e retomar a discussão sobre caminhos econômicos para viabilizar a transição para uma economia de baixo carbono. Sem a discussão séria do “como” não chegaremos a lugar nenhum. *** Em minha opinião, uma das mais belas passagens da literatura é esse parágrafo inicial de “Um conto de duas cidades” (*) de Dickens, um dos meus autores preferidos: “Aquele foi o melhor dos tempos, o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós […]” Sempre me lembro dessas palavras quando o tema é mudança do clima. (*) A Tale of Two Cities, título em inglês.
Um Nobel para a racionalidade econômica na questão climática.
“In dreams begins responsibility” W. B. Yeats A questão climática Dia 05 de outubro de 2018 foi lançado na Coréia, em Incheon, um relatório especial do IPCC sobre os impactos do aquecimento global em 1,5o C acima dos níveis pré-industriais. De acordo com o IPCC, as atividades humanas causaram um aquecimento médio do clima de aproximadamente 1o C (na verdade, um intervalo de 0,8 a 1,2 o C). A estimativa do IPCC é que atinjamos 1,5o C entre 2030 e 2052, se seguirmos o padrão atual de emissões. É bom lembrar que um aquecimento médio de 1,5o C significa que certas regiões enfrentarão temperaturas maiores que essa média e outras, menores. O gráfico abaixo ilustra as modelagens do IPCC até 2100, indicando cenários de emissões e o consequente impacto sobre o clima: Fonte: IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5 °C above pre-industrial levels, 2018 p. 7 O relatório detalha os impactos desse nível de aquecimento sobre ecossistemas e sobre o bem-estar social. Esses impactos são relevantes sobre a agricultura, florestas, biodiversidade, níveis dos oceanos; em particular, o relatório detalha os danos menores causados se conseguirmos manter o aquecimento em 1,5o C, ao invés de 2o C. Enfim, para quem quiser conhecer melhor esses impactos, o relatório completo está aqui: http://www.ipcc.ch/report/sr15/ Não existe uma resposta única de como podemos limitar o aquecimento a 1,5o C porque são necessários esforços em várias frentes já que impactos climáticos são sistêmicos: envolvem aspectos geofísicos, ecológicos, tecnológicos, socioculturais, institucionais e econômicos. O que sabemos, com o melhor conhecimento científico disponível nesse momento, é que o assunto é sério e demanda atenção global. Mas nós sabemos que as respostas políticas ao tema têm sido aquém da urgência que o assunto requer. O prêmio Nobel de Economia de 2018 No dia 08 de outubro de 2018 foi anunciado o prêmio de ciências econômicas do Banco Central da Suécia (popularmente conhecido como “Nobel de Economia”) para William D. Nordhaus e Paul M. Romer. Para Nordhaus por sua contribuição para a integração das mudanças do clima nas análises macroeconômicas de longo-prazo. Para Romer por sua contribuição para a integração de inovações tecnológicas nas análises macroeconômicas de longo-prazo. Vamos deixar a contribuição do Professor Romer para outro post. O que nos diz o trabalho do Professor Nordhaus? Além de ter escrito junto com o Samuelson um dos livros-texto de economia mais influentes (https://www.amazon.com.br/Economia-Paul-Samuelson-ebook/dp/B07GJQR54Q?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=nordhaus&qid=1539807797&sr=8-1&ref=sr_1_1) William Nordhaus foi pioneiro ao criar um modelo quantitativo para analisar os potenciais impactos macroeconômicos de ações que visam reduzir os efeitos da mudança do clima. Qualquer decisão de reduzir emissões terá efeitos profundos sobre a atividade econômica: desde produção de alimentos, geração de energia a mudanças em modais de transporte. Não se pode subestimar os impactos econômicos de uma decisão como essa porque envolve custos substanciais, mudanças políticas não triviais e avanços tecnológicos. Assim, não se engane caro leitor, cara leitora: decisões envolvendo redução de emissões têm profundos impactos políticos e econômicos. Nordhaus desenvolveu um Modelo de Equilíbrio Geral Computável (EGC) para fazer tais análises. O objetivo é analisar os custos sobre a economia de decisões ligadas à redução de emissões. Modelos EGC consideram o conjunto da economia, em sua estrutura microeconômica. São modelos aplicados que tratam de maneira quantitativa os efeitos de mudanças políticas na economia (pode ser regional, nacional etc). O trabalho do Nordhaus (com co-autores) gerou o modelo Dynamic Integrated Climate-Economy model, conhecido como DICE. O termo “dinâmica” nesse caso é bem importante: por causa das implicações de longo prazo das mudanças do clima e por causa dos efeitos também de longo prazo de políticas (quaisquer que sejam elas, climáticas, fiscais, monetárias etc) sobre a economia, uma modelagem dinâmica produz análises melhores do que modelos estáticos. A premissa da modelagem desenvolvida por Nordhaus é que é preciso levar em consideração os custos e benefícios de políticas climáticas sobre a economia como um todo. Segundo ele: “[…] Societies should undertake environmental policies only when their benefits, broadly construed, exceed their costs and that the level of environmental control should at that point where the instrumental benefits of additional controls no longer exceed the incremental costs.” Fonte: Nordhaus, W. (1992) The Dice Model: Background and Structure of a Dynamic Integrated Climate-Economy Model of the Economics of Global Warming. Nordhaus é um dos pioneiros do que hoje chamamos de “economics of climate change”. Um dos principais desafios para o avanço de mitigação de emissões de gases de efeito estufa é justamente convencer as pessoas que mitigar emissões é fundamental e viável economicamente. O problema é que os custos da mitigação ocorrem hoje (nossa geração), enquanto que os benefícios da mitigação ocorrerão no futuro (geração futura, que sofrerá menos com as mudanças do clima se incorrermos nos custos hoje). Isso é o inverso do que políticos estão acostumados a fazer: em geral, eles tomam decisões cujos benefícios são aproveitados hoje (nossa geração – a geração daqueles que votam neles), enquanto os custos serão pagos no futuro. Para que ações efetivas sejam tomadas no sentido de evitar a catástrofe das mudanças do clima, será necessário também trazer racionalidade econômica para esse debate. Estimar – ainda que com várias incertezas – a ordem de grandeza desses custos e benefícios. Alguns modelos econômicos têm apontado que os custos necessários para fazer a transição para uma economia de baixo carbono não são tão dramáticos quanto se pensava, ao mesmo tempo em que há ganhos econômicos em se fazer essa transição. Tais ganhos são advindos de aumento de produtividade, geração de empregos, entre outros. Essa discussão com base em modelagens e projeções precisa acontecer para além do ativismo climático. Sonhar com uma economia de baixo carbono é fundamental, mas precisamos fazê-lo com responsabilidade econômica, compreendendo profundamente (na medida do possível) e discutindo com a sociedade os impactos sobre o bem-estar social durante a fase de transição. O prêmio Nobel de economia desse ano, em minha opinião, mandou esse recado.
Mercados para ativos ambientais.
Escrevi esse post com o objetivo de dar um pouco mais de contexto à minha conversa com o Vinicius Torres Freire publicada na Folha de São Paulo na edição impressa no dia 30/08/2018. O Brasil é um país florestal: mais da metade do nosso território é coberto por florestas naturais e plantadas. Em cobertura florestal perdemos apenas para a Rússia. Somos também um país agro: a agroindústria representa cerca de 25% do PIB e 45% das exportações brasileiras. A atividade agropecuária ocupa no País aproximadamente 30% do território nacional. É possível conciliar proteção ambiental com produção econômica? A resposta para essa pergunta não é simples porque depende de vários aspectos impactados pela formulação de políticas públicas. Tais políticas públicas precisam levar em consideração evitar e/ou minimizar os danos ambientais, estabelecendo objetivos ambientais claros, ao mesmo tempo em que reconhecem possíveis trade-offs econômicos. Mas é possível desenhar políticas públicas que minimizem esses trade-offs. Comando e Controle (CeC) e Instrumentos Econômicos (IE) Na “caixa de ferramentas” do formulador de políticas públicas, há duas categorias de instrumentos para política ambiental: instrumentos de comando e controle e instrumentos econômicos. Os instrumentos de comando e controle estabelecem os limites máximos de poluição (poluição aqui entendido de maneira mais geral: a presença de matéria ou energia cuja natureza, localização ou quantidade tem efeitos indesejados sobre o meio ambiente) visando regular as fontes de poluição. Os instrumentos econômicos visam motivar economicamente os agentes a reduzirem poluição, afetando diretamente o cálculo de custos e benefícios do poluidor, influenciando suas decisões. Exemplos de instrumentos econômicos são tributos, subsídios e estabelecimento de mercados para o direito de poluir. Em vários casos de políticas públicas ambientais, trabalha-se com um mix de comando e controle e instrumentos econômicos. Mas vamos falar de mercados para ativos ambientais O uso de instrumentos econômicos, e dentro deles, o estabelecimento de mercados para o direito de poluir é uma forma interessante de reconhecer possíveis trade-offs entre política ambiental e produção econômica. Falei um pouco disso aqui, aqui, aqui, aqui. Nos Estados Unidos, mercados para ativos ambientais – ou mais tecnicamente, associados a serviços ecossistêmicos -, vêm se desenvolvendo desde a década de 1980 e envolvem mercados para floresta e mudança do uso do solo, espécies ameaçadas, bacias hidrográficas, áreas alagadas. Esses mercados transacionam por ano cerca de US$3 bilhões. Outros exemplos de mercados são o mercado pesqueiro na Nova Zelândia, mercado de água na Austrália, carbono na União Europeia. Nós do FGVces, em parceria com a FEBRABAN, discutimos alguns desses mercados nesse relatório aqui. Na minha opinião, o desenvolvimento de mercados para ativos ambientais no Brasil é um caminho fundamental para sairmos desse impasse sobre se é possível ou não conciliar proteção ambiental com produção econômica. *** Para saber mais: http://www.florestal.gov.br/documentos/publicacoes/3230-boletim-snif-2017-ed1-final/file Clique para acessar o 3_febraban_portugues_cra.pdf
Mudança institucional, sustentabilidade e o mercado de investimentos.
O progresso em uma determinada sociedade (econômico, social, político, ambiental etc) está fortemente relacionado à qualidade das instituições presentes nessa sociedade. Instituições são “as regras do jogo em uma sociedade; as restrições criadas que delimitam o comportamento humano. Por consequência, elas ajudam a estruturar os incentivos que incidem sobre as relações humanas, sejam elas políticas, sociais ou econômicas. Mudanças institucionais moldam o jeito que as sociedades evoluem ao longo do tempo e, portanto, são chave para se compreender mudanças históricas.” Esse é um trecho do livro “Institutions, institutional change and economic performance” de um dos maiores pesquisadores sobre a importância das instituições para o progresso econômico: Douglass North, prêmio Nobel de Economia em 1993. Cabe aqui destacarmos que instituições, segundo North e outros pesquisadores, diferem de organizações. Geralmente usamos a palavra “instituições” como sinônimo de “organizações”, mas são conceitos diferentes. As instituições podem ser formais ou informais – são tudo aquilo que moldam o comportamento humano: códigos de conduta, convenções sociais, o que as pessoas entendem serem o comportamento certo e o errado em determinado tempo e sociedade. As instituições são as regras do jogo; as organizações são os jogadores, criadas para jogar o jogo. Em minha opinião, se quisermos ter algum vislumbre de como será o futuro, esse grande desconhecido, é preciso olhar com atenção como estão mudando as instituições. Mais até do que as organizações. Instituições podem ser mudadas rápida ou lentamente, mas é a mudança institucional que vai moldando o futuro e a forma que terão as organizações. Especialmente para quem se interessa por estratégia e risco é fundamental observar as tendências do comportamento humano, mudanças nos valores sociais e nas regras formais e informais sobre o que é ou não aceitável. Escravidão, por exemplo: houve um tempo na história humana que foi uma instituição aceita; e houve um tempo que passou a ser condenada. Sustentabilidade e mudança institucional Eu venho trabalhando no campo da sustentabilidade há cerca de 20 anos. Olhando a foto pode parecer que o tema tem avançado pouco, mas analisando o filme é nítido como esse tema tem entrado na vida social, política e econômica globalmente. Em alguns casos com mais rapidez, em outros com menos. Esse artigo de hoje no Valor Econômico escrito pelo Eid e pelo Gazzotti, ambos da Itaú Asset Management, é primoroso (https://www.valor.com.br/financas/5688099/nova-fronteira-dos-investimentos-responsaveis). Não apenas porque eles apresentam de maneira cristalina um movimento crescente de integração de questões de governança, sociais e ambientais nas decisões de investimento, mas principalmente porque junto com diversos outros “sinais de fumaça” (alguns deles apresentei aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) indicam que a sustentabilidade integra uma mudança em relação às regras do jogo que impactavam a competitividade em décadas passadas (mudança institucional, portanto). Esse é um recado importante para gestores de empresas conectados com a gestão de longo prazo: talvez essa mudança não seja sentida integralmente amanhã, mas não pode ser ignorada. Para saber mais:
Precificação de carbono: estado atual da discussão.
Um tema fundamental na agenda da sustentabilidade atual é a precificação de carbono. A precificação de carbono nada mais é do que atribuir um preço para o carbono (e demais gases de efeito estufa, dependendo do desenho do mecanismo de precificação), de tal maneira que as considerações envolvendo emissões de gases de efeito estufa passem a fazer parte da tomada de decisão de gestores públicos e privados. Esse processo de precificação pode acontecer via estabelecimento de um tributo (emitiu, pagou) ou por meio da criação de um mercado, em que são definidas as emissões máximas permitidas por setor (cap) e a alocação entre setores acontece por meio de um mercado (trade). Há também processos voluntários de precificação de carbono, em que agentes públicos e/ou privados estabelecem internamente às suas organizações um preço teórico para o carbono e demais gases de efeito estufa, inserindo-os em suas decisões de forma a se preparar para regulações futuras. Há mais de 40 nações no mundo com processos de precificação do carbono. No Brasil, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e a NDC estabelecem o compromisso voluntário de redução de emissões. Dentro desse contexto, o Ministério da Fazenda instituiu o Comitê Executivo e o Grupo de Trabalho do Projeto PMR (Partnership for Market Readiness), que busca avaliar a oportunidade e conveniência de se implementar a precificação das emissões – via imposto e/ou mercado de carbono – para auxiliar no cumprimento da NDC brasileira e também como um dos instrumentos da PNMC após 2020. No contexto do PMR, estão sendo estudados os potenciais impactos de um modelo de precificação de carbono em diferentes setores da economia brasileira. Dependendo da forma como forem conduzidas, tais políticas podem representar, por um lado, um risco sistêmico, e por outro, oportunidades para investimentos em projetos e empresas que visam menor emissão de carbono. Assim, as políticas climáticas e a dinâmica de mercado têm levado investidores a refletir sobre o risco associado a empréstimos e investimentos em ativos físicos intensivos em carbono e à necessidade de se preparar para o potencial impacto da precificação de carbono nas empresas do setor produtivo, seus clientes. Em 2017, nossa equipe do FGVces em parceria com a FEBRABAN desenvolveu uma pesquisa sobre precificação de carbono e como bancos e empresas têm se preparado, fazendo a gestão do risco de carbono. O relatório, em minha opinião bastante completo, está publicado aqui: https://cmsportal.febraban.org.br/Arquivos/documentos/PDF/-L04_precificac%CC%A7a%CC%83o.pdf Esse é um tema fundamental para os gestores de empresas, bancos e investidores. O carbono já vem se tornando um driver de competitividade. Conhecer os riscos físicos associados às mudanças do clima e os riscos da transição para uma economia de baixo carbono é fundamental para os gestores modernos.
Sustentabilidade dá retorno financeiro?
A resposta a essa pergunta é ainda – em termos científicos pelo menos – equivalente à pergunta do Freud “Afinal, o que querem as mulheres?”. Brincadeiras à parte, a verdade é que a comunidade acadêmica envolvida com pesquisas nesse tema ainda não chegou à uma conclusão. Seja por motivos metodológicos (investigar causalidade no tema da sustentabilidade e retorno financeiro é complexo) ou por falta de série longa de dados, esse é um dos puzzles de finanças. Por outro lado, é um assunto de fundamental importância para gestores de empresas e acionistas. Por essa razão, é um dos meus principais temas de pesquisa e sobre o qual venho me debruçando há anos. No GVces, temos trabalhado esse tema com as empresas também. Nesse vídeo, você pode ver uma breve conversa sobre esse assunto com a participação de dois gestores (Siemens e Votorantim Cimentos) que participam conosco dessa discussão. Para mais informações, nesse nesse post aqui há um artigo acadêmico meu, escrito com colegas, e publicado recentemente.