Inovação Tecnológica, Mercado Bancário & Sustentabilidade

Em entrevista para o Estadão de 25/11/2019, o diretor do Banco Central (Bacen) João Manoel Pinho de Mello indica elementos em análise pelo banco para aumentar a competição no sistema financeiro com o objetivo de reduzir o spread bancário. O interessante é que várias dessas medidas refletem inovação tecnológica, inclusive as já sendo utilizadas por fintechs para ganho de eficiência e prestação de serviços financeiros.

O World Economic Forum (WEF) estima que globalmente 2 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços financeiros de alta qualidade e a preços acessíveis. E estima que o mesmo aconteça com 200 milhões de micro e pequenas empresas, cujas necessidades financeiras não atendidas excedem US$ 2 trilhões. Atender à essa demanda crescente é fundamental para gerar crescimento, desenvolvimento econômico e estabilidade financeira. Tem também efeito importante sobre redução de pobreza e desigualdades. Mas pelo que se observa, parte dessa necessidade será atendida por novos entrantes, atores bem diferentes dos tradicionais bancos. Esses novos atores (alguns não tão novos assim)  são e serão bancos “sombra” (aqueles que não têm depósito bancário) e fintechs, especialmente as que viabilizam peer-to-peer (P2P; intermediação de empréstimos diretos a pessoas) e business-to-business lending (B2B; intermediação de empréstimos para negócios). O open banking viabiliza essa revolução na intermediação financeira.

Eu acredito que o mundo financeiro que teremos daqui a alguns anos será bem diferente do que temos hoje porque essas inovações são disruptivas em relação ao sistema atual. Outra discussão importante conectada à essa agenda é a cashless society, que é a transição para uma sociedade que usa prioritariamente pagamentos digitais. As implicações para estabilidade financeira e o papel dos bancos centrais não são triviais, para nem começar a discussão de seus impactos sobre a privacidade individual.

Revoluções tecnológicas resultam em novos arranjos econômicos e produtivos adotados em grande escala, levando a um salto de desenvolvimento. Esse processo acontece em razão do surgimento de novos produtos e indústrias, de tal maneira que os impactos do breakthrough tecnológico têm alcance maior que os setores que o originaram, levando a aumento de produtividade em praticamente todas as atividades econômicas. Por essa razão, tecnologia e inovação têm impactos relevantes no crescimento econômico e bem-estar social. Mas e os aspectos socioambientais dessa revolução, em especial no setor bancário?

A agenda de sustentabilidade no mercado de crédito bancário  (ou ASG – ambiental, social e governança) vem avançando desde os anos 2000. Há muito o que avançar, claro, mas muito se avançou.

O Know Your Customer (KYC), por exemplo. Trata-se de uma medida de compliance desenvolvida para evitar lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo. No Brasil, os requerimentos do KYC recaem sobre as instituições supervisionadas pelo Banco Central. No Brasil também tem havido avanços importantes na regulação de aspectos socioambientais no mercado de crédito, como as Resoluções 4.327/14 e 4.557/17 e a Circulares 3.846/17 e 3.907/2018 do Conselho Monetário Nacional e Bacen. Do ponto de vista da autorregulação, há a Norma SARB 014/14 e demandas sobre os bancos para maior transparência quanto a aspectos ASG, como os relatórios GRI, relato integrado, aderência à Força Tarefa  de reporte e transparência em relação às mudanças climáticas (TCFD), Princípios do Equador, entre tantas outras.

As preocupações com aspectos ambientais, sociais e de governança vinham em um crescente nos mercados bancários global e brasileiro. Porém, os processos de avaliação dos riscos e das oportunidades ASG nos negócios adquirem, nesse novo contexto tecnológico, contornos muito diferentes. O caminho para o desenvolvimento sustentável pode ser fortalecido com as novas tecnologias, mas surgem novos riscos que não devem ser excluídos do radar da sociedade.

Para saber mais:

Entrevista do Diretor do Bacen para o Estadão: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,agenda-para-baratear-credito-inclui-zap-de-pagamento-sem-dinheiro-ou-cartao-diz-diretor-do-bc,70003101948

Artigo que eu e Regina Magalhães escrevemos para a GV Executivo sobre a Quarta Revolução Industrial e a Sustentabilidade: https://rae.fgv.br/sites/rae.fgv.br/files/gv_v17n1_ar3.pdf

Mais um texto do blog sobre esse tema: Sustentabilidade e a destruição criativa.

World Economic Forum no tema: https://www.weforum.org/projects/the-future-of-automation-in-the-financial-and-monetary-system