
“In dreams begins responsibility” W. B. Yeats
A questão climática
Dia 05 de outubro de 2018 foi lançado na Coréia, em Incheon, um relatório especial do IPCC sobre os impactos do aquecimento global em 1,5o C acima dos níveis pré-industriais. De acordo com o IPCC, as atividades humanas causaram um aquecimento médio do clima de aproximadamente 1o C (na verdade, um intervalo de 0,8 a 1,2 o C). A estimativa do IPCC é que atinjamos 1,5o C entre 2030 e 2052, se seguirmos o padrão atual de emissões. É bom lembrar que um aquecimento médio de 1,5o C significa que certas regiões enfrentarão temperaturas maiores que essa média e outras, menores. O gráfico abaixo ilustra as modelagens do IPCC até 2100, indicando cenários de emissões e o consequente impacto sobre o clima:

Fonte: IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5 °C above pre-industrial levels, 2018 p. 7
O relatório detalha os impactos desse nível de aquecimento sobre ecossistemas e sobre o bem-estar social. Esses impactos são relevantes sobre a agricultura, florestas, biodiversidade, níveis dos oceanos; em particular, o relatório detalha os danos menores causados se conseguirmos manter o aquecimento em 1,5o C, ao invés de 2o C. Enfim, para quem quiser conhecer melhor esses impactos, o relatório completo está aqui: http://www.ipcc.ch/report/sr15/
Não existe uma resposta única de como podemos limitar o aquecimento a 1,5o C porque são necessários esforços em várias frentes já que impactos climáticos são sistêmicos: envolvem aspectos geofísicos, ecológicos, tecnológicos, socioculturais, institucionais e econômicos. O que sabemos, com o melhor conhecimento científico disponível nesse momento, é que o assunto é sério e demanda atenção global.
Mas nós sabemos que as respostas políticas ao tema têm sido aquém da urgência que o assunto requer.
O prêmio Nobel de Economia de 2018
No dia 08 de outubro de 2018 foi anunciado o prêmio de ciências econômicas do Banco Central da Suécia (popularmente conhecido como “Nobel de Economia”) para William D. Nordhaus e Paul M. Romer. Para Nordhaus por sua contribuição para a integração das mudanças do clima nas análises macroeconômicas de longo-prazo. Para Romer por sua contribuição para a integração de inovações tecnológicas nas análises macroeconômicas de longo-prazo. Vamos deixar a contribuição do Professor Romer para outro post.
O que nos diz o trabalho do Professor Nordhaus?
Além de ter escrito junto com o Samuelson um dos livros-texto de economia mais influentes (https://www.amazon.com.br/Economia-Paul-Samuelson-ebook/dp/B07GJQR54Q?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=nordhaus&qid=1539807797&sr=8-1&ref=sr_1_1) William Nordhaus foi pioneiro ao criar um modelo quantitativo para analisar os potenciais impactos macroeconômicos de ações que visam reduzir os efeitos da mudança do clima.
Qualquer decisão de reduzir emissões terá efeitos profundos sobre a atividade econômica: desde produção de alimentos, geração de energia a mudanças em modais de transporte. Não se pode subestimar os impactos econômicos de uma decisão como essa porque envolve custos substanciais, mudanças políticas não triviais e avanços tecnológicos. Assim, não se engane caro leitor, cara leitora: decisões envolvendo redução de emissões têm profundos impactos políticos e econômicos.
Nordhaus desenvolveu um Modelo de Equilíbrio Geral Computável (EGC) para fazer tais análises. O objetivo é analisar os custos sobre a economia de decisões ligadas à redução de emissões. Modelos EGC consideram o conjunto da economia, em sua estrutura microeconômica. São modelos aplicados que tratam de maneira quantitativa os efeitos de mudanças políticas na economia (pode ser regional, nacional etc).
O trabalho do Nordhaus (com co-autores) gerou o modelo Dynamic Integrated Climate-Economy model, conhecido como DICE. O termo “dinâmica” nesse caso é bem importante: por causa das implicações de longo prazo das mudanças do clima e por causa dos efeitos também de longo prazo de políticas (quaisquer que sejam elas, climáticas, fiscais, monetárias etc) sobre a economia, uma modelagem dinâmica produz análises melhores do que modelos estáticos. A premissa da modelagem desenvolvida por Nordhaus é que é preciso levar em consideração os custos e benefícios de políticas climáticas sobre a economia como um todo. Segundo ele:
“[…] Societies should undertake environmental policies only when their benefits, broadly construed, exceed their costs and that the level of environmental control should at that point where the instrumental benefits of additional controls no longer exceed the incremental costs.”
Fonte: Nordhaus, W. (1992) The Dice Model: Background and Structure of a Dynamic Integrated Climate-Economy Model of the Economics of Global Warming.
Nordhaus é um dos pioneiros do que hoje chamamos de “economics of climate change”.
Um dos principais desafios para o avanço de mitigação de emissões de gases de efeito estufa é justamente convencer as pessoas que mitigar emissões é fundamental e viável economicamente. O problema é que os custos da mitigação ocorrem hoje (nossa geração), enquanto que os benefícios da mitigação ocorrerão no futuro (geração futura, que sofrerá menos com as mudanças do clima se incorrermos nos custos hoje). Isso é o inverso do que políticos estão acostumados a fazer: em geral, eles tomam decisões cujos benefícios são aproveitados hoje (nossa geração – a geração daqueles que votam neles), enquanto os custos serão pagos no futuro.
Para que ações efetivas sejam tomadas no sentido de evitar a catástrofe das mudanças do clima, será necessário também trazer racionalidade econômica para esse debate. Estimar – ainda que com várias incertezas – a ordem de grandeza desses custos e benefícios. Alguns modelos econômicos têm apontado que os custos necessários para fazer a transição para uma economia de baixo carbono não são tão dramáticos quanto se pensava, ao mesmo tempo em que há ganhos econômicos em se fazer essa transição. Tais ganhos são advindos de aumento de produtividade, geração de empregos, entre outros. Essa discussão com base em modelagens e projeções precisa acontecer para além do ativismo climático.
Sonhar com uma economia de baixo carbono é fundamental, mas precisamos fazê-lo com responsabilidade econômica, compreendendo profundamente (na medida do possível) e discutindo com a sociedade os impactos sobre o bem-estar social durante a fase de transição.
O prêmio Nobel de economia desse ano, em minha opinião, mandou esse recado.
- Nós no GVces fizemos um relatório sobre o uso dessas modelagens para o desenho de uma política fiscal verde no Brasil. Está disponível aqui: https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/arquivos.gvces.com.br/arquivos_gvces/arquivos/233/Relatorio_GFP_FINAL_19112013.pdf)
- Fizemos também em parceria com a Coalizão Clima, Floresta e Agricultura dois estudos com modelagens sobre os ganhos econômicos de duas políticas climáticas: (i) a efetiva implantação do Plano Agricultura de Baixo Carbono; e (ii) decuplicar a área de manejo florestal sustentável na Amazônia. Sou suspeita para falar, claro, mas realmente acho que deveríamos estar fazendo no Brasil discussões como a que propusemos nesses dois relatórios. Disponíveis aqui: http://gvces.com.br/eixo-ii-contribuicoes-para-analise-da-viabilidade-economica-da-implementacao-do-plano-abc-e-da-indc-no-brasil?locale=pt-br e http://gvces.com.br/contribuicoes-para-analise-da-viabilidade-economica-das-propostas-referentes-a-decuplicacao-da-area-de-manejo-florestal-sustentavel?locale=pt-br