Indicadores de desempenho na propriedade rural.
A cada 15 dias tenho o prazer de participar do programa “Primeira Prosa” do canal Terra Viva da Rede Bandeirantes (http://tvterraviva.band.uol.com.br). São conversas voltadas ao aperfeiçoamento da gestão da propriedade rural. No dia 22/02/2018 conversamos sobre a importância de indicadores de desempenho para o acompanhamento da gestão. É importante pensar no curto, médio e longo prazos e ter um painel de indicadores que nos ajude a monitorar o desempenho da gestão. Afinal, como dizia Lorde Kelvin “o que não é medido não é gerenciado”.
Investidores, sustentabilidade e a carta do Laurence Fink do BlackRock.
Eu trabalho com as chamadas “finanças para a sustentabilidade” há vinte anos. No começo, essa era uma discussão que parecia muito exótica, totalmente desconectada dos propósitos de finanças. Nunca me pareceu assim, porque finanças e sustentabilidade têm no centro de suas preocupações algo em comum: a preocupação com os efeitos intertemporais das decisões tomadas. Mas enfim, deixemos essas reflexões teóricas para outros momentos. O ponto que eu queria ressaltar aqui é outro: para quem como eu vem nessa trajetória, a publicação nessa semana da carta do Laurence Fink (LF), CEO e fundador do BlackRock, para os CEOs de empresas foi um daqueles momentos (um dos, porque há vários outros) que nos apontam que a transição para a sustentabilidade está acontecendo. Slowly but surely. Em primeiro lugar, quem é BlackRock? Fundado há 30 anos, BlackRock é considerado o maior gestor de ativos do mundo. Em 31 dezembro de 2017, a casa tinha US$ 6,288 trilhões de ativos sob gestão (AUM, assets under management). É uma casa gestora relevante no mercado de investimentos. Naturalmente, a principal preocupação com a decisões de investimento no BlackRock é trazer retorno para seus clientes, respeitando o dever fiduciário. A maior parte de seus fundos é passivo, apesar de terem fundos ativos também (US$1,7 trilhão). Qual o conteúdo da carta do Larry Fink? Em carta divulgada em 12 de Janeiro, intitulada “A sense of purpose”, Larry Fink começa dizendo que tem refletido sobre as questões mais urgentes para os investidores hoje e como o BlackRock precisa se adaptar para servir a seus clientes de maneira mais eficiente: “As BlackRock approaches its 30th anniversary this year, I have had the opportunity to reflect on the most pressing issues facing investors today and how BlackRock must adapt to serve our clients more effectively. It is a great privilege and responsibility to manage the assets clients have entrusted to us, most of which are invested for long-term goals such as retirement. As a fiduciary, BlackRock engages with companies to drive the sustainable, long-term growth that our clients need to meet their goals.” A carta continua para dizer que os governos têm sido falhos na preparação para o futuro em questões que envolvem aposentadoria, infraestrutura, automação, capacitação da força de trabalho, questões ambientais, impactos positivos nas comunidades. Por essa razão, a sociedade tem buscado o setor privado para que as empresas respondam aos desafios sociais da atualidade; as expectativas sobre as empresas nunca foram maiores: “Society is demanding that companies, both public and private, serve a social purpose. To prosper over time, every company must not only deliver financial performance, but also show how it makes a positive contribution to society. Companies must benefit all of their stakeholders, including shareholders, employees, customers, and the communities in which they operate.” A carta segue nesse tom concluindo que: E aí? Legal, não é? É bom lembrar que essa é a quarta carta LF nesse tom (2015, 2016, 2017 e agora, 2018). Então, será que são só boas intenções em uma carta com um grande apelo de relações públicas? Talvez sim, talvez não. Só o tempo dirá. Em minha opinião, a carta do LF sinaliza algo muito importante: o crescimento do gestor de ativos/investidor ativista. O que tem de interessante na carta é exatamente a honestidade com que LF apresenta os desafios para o BlackRock ser um acionista mais ativo (ou ativista) em relação às questões de longo prazo. Como a maior parte dos fundos da casa é passivo, a princípio, há pouco que o gestor pode fazer. Em fundos ativos, o gestor pode vender as ações de uma empresa investida caso não concorde com a direção estratégica que o board esteja dando. Mas em fundos passivos o gestor não pode manifestar seu descontentamento vendendo as ações se a empresa permanecer no índice. Pode, entretanto, se engajar com o board e votar. Portanto, é possível que vejamos em um horizonte de médio prazo o crescimento da figura do gestor de ativos/investidor ativista: “This responsibility goes beyond casting proxy votes at annual meetings – it means investing the time and resources necessary to foster long-term value.” Esse é um movimento que vem crescendo. Como apontei aqui, aqui e aqui esse tema tem crescido na comunidade de investidores (apesar de ainda não haver motivos para dizermos que “tudo mudou”). O próprio BlackRock teve um papel decisivo na reunião geral de acionistas da Exxon Mobil em Dallas em 2017 solicitando que a empresa mostrasse quais medidas estava tomando para contribuir para que as mudanças climáticas ficassem em torno dos 2oC. Como disse o Andrew Winston, autor de Green to Gold, “essas vozes passivas estão ficando cada vez mais ativas”. Nosso último relatório (do GVces em parceria com WWF) sobre a ligação entre investidores estrangeiros e desmatamento no Brasil aponta alguns desafios que os investidores estrangeiros mencionaram no engajamento com empresas brasileiras. Veja o que diz esse investidor: “…é difícil contatar as empresas no Brasil porque elas nem sempre querem conversar conosco, apesar de sermos proprietários da empresa. Então é uma das coisas que infelizmente não é fácil de engajar. Requer, o que tenho certeza que vocês sabem, mais esforço para engajar essas empresas porque geralmente elas não querem falar com investidores quando estão fazendo alguma coisa errada.” (pg. 64 desse relatório aqui: http://mediadrawer.gvces.com.br/publicacoes-2/original/wwf_whitepaper2017_fgv_v07b.pdf) Esse movimento do investidor ativista vai chegar no Brasil. Ainda mais quando consideramos que algumas empresas brasileiras já têm emitido Green Bonds. Mas, permanece a reflexão de sempre: vamos precisar aprimorar os mecanismos de monitoramento, relato, transparência e verificação das empresas operando no Brasil para que possam se beneficiar da transição para a sustentabilidade por parte das finanças internacionais. Para saber mais:
Investidores Institucionais e Desmatamento nas Cadeias de Pecuária, Soja, Papel e Celulose no Brasil.
A relação dos investidores institucionais, principalmente os estrangeiros, com os potenciais riscos ligados ao desmatamento nas cadeias da pecuária, soja, papel e celulose no Brasil é ainda pouco estudada e debatida. O WWF Brasil nos convidou (e nós aceitamos) a estudar esses riscos e discutir propostas de como os investidores podem mitigá-los durante suas decisões de investimento e ao longo de seu processo de monitoramento do investimento. Como parte de nossa pesquisa – que incluiu revisão bibliográfica, entrevistas e análises da equipe – o relatório apresenta essa discussão e um framework para o mapeamento desses riscos. Relatório disponível aqui: http://mediadrawer.gvces.com.br/publicacoes-2/original/wwf_whitepaper2017_fgv_v07b.pdf.
Serviços Ecossistêmicos: fontes de riscos e oportunidades para os negócios.
Por cerca de duzentos anos, os residentes na cidade de Nova Iorque se orgulhavam de ter acesso, nas torneiras de suas casas, à água considerada entre as mais puras dos Estados Unidos. Isso era possível em função da uma infraestrutura construída em torno das bacias hidrográficas de Catskill e Croton, um dos maiores complexos hidrográficos com água superficial nos Estados Unidos. No começo da década de 1990, de olho no aumento da poluição das águas, o governo federal aprovou uma lei que passou a regular o suprimento de água no país (The Safe Drinking Water Act), visando proteger a saúde pública de seus cidadãos. A lei estabeleceu que as cidades que fossem supridas por sistemas com águas de superfície (mais sujeitas à poluição e contaminação) deveriam filtrar a água ou provar que podem proteger a bacia hidrográfica da qual a água se origina. Diante dessa nova lei, a cidade de Nova Iorque se viu frente a duas opções: construir um sistema industrial que filtrasse a água vinda de Catskill e Croton, com investimento estimado em cerca de US$10 bilhões; ou investir na preservação ecológica das bacias hidrográficas com investimento de US$ 1,5 bilhão. Frente às alternativas, a cidade de Nova Iorque implantou o plano de preservação ecológica que envolveu o pagamento direto a produtores rurais nas áreas de Catskill e Croton pela sua contribuição para a manutenção da qualidade da água dessas bacias. Esse pagamento incluiu a remuneração a esses fazendeiros pela manutenção de áreas verdes preservadas. Ou seja: os fazendeiros passaram a receber para manter suas áreas verdes. A história de Nova Iorque ilustra um conceito chave nas discussões de sustentabilidade: a importância de considerar os serviços ecossistêmicos nos processos de tomada de decisão.
Sustentabilidade e a destruição criativa.
Em 1902, em Minnesota, estado no norte do Estados Unidos, com bonitas paisagens e pradarias, cinco amigos decidiram fundar uma empresa para buscar e extrair corundum, minério conhecido por sua dureza e com diversas aplicações na indústria. Mais de um século depois, essa empresa tem presença global, faturamento de mais de US$ 30 bilhões e 91.584 funcionários distribuídos em mais de 70 países. Achou que estávamos falando de alguma grande mineradora atual? Não, a empresa em questão é a 3M, ou a Minnesota Mining and Manufacturing Co, seu nome de fundação. As razões que levaram a 3M a ser uma empresa longeva e bem-sucedida são muitas, mas um elemento é central: a capacidade de inovar, mantendo seus valores centrais (core values). Segundo Jim Collins e Jerry Porras em “Built to Last”, é essencial que ao longo do tempo as empresas mudem a cultura, estratégia, produtos, objetivos, competências, políticas, estrutura administrativa e sistemas de incentivos. A única coisa que não deve mudar são suas crenças e valores centrais. A necessidade de mudança e inovação constantes no mundo capitalista ficou conhecida pelo trabalho de Schumpeter, o criador do hoje famoso conceito de “destruição criativa”. Em sua análise da economia capitalista, Schumpeter afirmou que o capitalismo é um processo evolucionário; não é (e nunca será) estacionário porque a vida econômica acontece em contextos sociais e ambientais que estão em constante mudança. Ora, empresas inovadoras investem em inovação, muitas vezes com resultados futuros incertos. E investimentos dessa natureza envolvem o sacrifício de recursos financeiros no curto prazo. Empresas bem-sucedidas estão acostumadas a lidar com mudanças e incertezas, mesmo que no curto prazo tenham que abdicar de retorno financeiro. Mas por que as empresas investem em inovação? Porque têm um vislumbre do futuro e precisam orientar seus negócios para essa direção e porque suas inovações estão profundamente conectadas a seus valores centrais, mesmo que não estejam a seu negócio atual. Em suma, gestores de empresas bem-sucedidas são capazes de enxergar na inovação oportunidades para criação e proteção de valor econômico, mesmo a médio e longo prazos. A gestão que considera a sustentabilidade é uma dessas inovações que vai deixar alguns negócios pelo caminho e vai levar ao surgimento de outros muito diferentes do que vemos hoje. Nesse artigo da GV Executivo, escrito em parceria com meu amigo Aron Belinky, explicamos as razões pelas quais a sustentabilidade deve ser levada a sério pelas empresas que querem continuar existindo. Boa leitura!
“Donald Trump cannot stop us”
Estou aqui na COP 23 em Bonn acompanhando as discussões globais sobre mudanças climáticas. Essa é uma conferência voltada à elaboração dos detalhes técnicos envolvendo o Acordo de Paris, como conexão entre os diversos mecanismos de precificação de carbono e como medir os avanços das NDCs. Participei hoje de uma discussão com dois governadores americanos (de Oregon e Washington, ambos do partido democrata) e quatro representantes dos governadores dos estados de Maryland e Massachusetts (ambos do partido republicano), Colorado e Nova York (ambos do partido democrata). A mensagem deles na conversa ficou clara: muitos estados americanos estão comprometidos com a agenda climática de maneira independente da posição do governo federal, em um esforço bipartisan (ou seja, envolvendo membros dos dois partidos). Inclusive foi mencionado que o subnacional (menção ao poder dos estados e municípios) é, na verdade, supranacional (no sentido de que é mais forte que o governo federal). Falei sobre isso aqui , aqui e aqui. Qual a mensagem principal desses estados? Segundo eles, há um entendimento de membros dois partidos de que mudanças climáticas não são uma questão política, mas científica. Nesse sentido, já tem havido – e haverá cada vez mais – esforços subnacionais no sentido de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Cabe destacar que o Regional Greenhouse Gas Initiative (RGGI) – mercado de carbono associado às emissões do setor elétrico envolvendo os estados de Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, New York, Rhode Island, e Vermont – anunciou em agosto de 2017 uma redução adicional de 30% nas emissões de carbono do setor até 2030, relativo ao ano de 2020. Outra iniciativa bastante comentada foi a Transportation and Climate Initiative (TCI) – acordo entre 11 estados americanos (Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, New Jersey, New York, Pennsylvania, Rhode Island e Vermont), e do Distrito de Columbia, para desenvolver uma economia baseada em energias “limpas” e reduzir as emissões do setor de transporte. Outro destaque é o Pacific Coast Collaborative (PCC), envolvendo os estados de Alaska, British Columbia, California, Oregon e Washington – que combinados representam uma população de 54 milhões de pessoas e um PIB de US$ 3 trilhões – que se juntaram para formar uma mega região orientada para inovação, energia e sustentabilidade. Foi também muito comentado o avanço que esses estados têm feito em incentivar o desenvolvimento de carros elétricos, energias renováveis, processos de precificação de carbono e foco grande em infraestrutura resiliente às mudanças climáticas. Um estudo de Georgetown Climate Center aponta que nos Estados Unidos, entre 2011 e 2014, a geração de energia elétrica solar fotovoltaica cresceu 577% e a eólica, 40%. O Governador Inslee de Washington mencionou que a chamada “economia verde” tem feito o PIB do estado dele crescer o dobro da média nacional. Mark Twain, em “The Czar´s Soliloquy”, definiu patriotismo como sendo “loyalty to the Nation all the time, loyalty to the Government when it deserves it.” Talvez vários estados Americanos estejam demonstrando, na prática, que buscar soluções econômicas para as mudanças do clima seja uma das verdadeiras expressões do patriotismo que caracteriza essa nação, mesmo estando em desacordo com seu Presidente. (*) Frase dita pelo Governador Jay Inslee, de Washington, hoje aqui na COP23. Para saber mais: http://www.georgetownclimate.org/articles/new-report-shows-u-s-states-leading-a-shift-to-clean-energy.html http://pacificcoastcollaborative.org
Análise de dez anos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE)
Um dos grandes puzzles em finanças envolve se a sustentabilidade contribui ou não para o maior retorno de ações de empresas com gestão para a sustentabilidade. Há vários estudos que concluem que a sustentabilidade contribui positivamente para o retorno; outros, que contribui negativamente; e outros apontam ainda que não há relação entre sustentabilidade e retorno financeiro. Buscando contribuir para essa discussão, me juntei a Ricardo Serra (Insper, Fecap e USP) e Fávero (USP) para analisar o risco-retorno dos dez anos do ISE. Quando analisamos economicamente o comportamento do ISE nesses dez anos, é possível observar que seu retorno foi superior ao benchmark, Ibovespa. Será que a conclusão de que o ISE tem retorno superior ao Ibovespa se mantém quando analisamos de maneira mais aprofundada, considerando análises estatísticas? Esse foi o ponto de partida do nosso estudo. Sobre o WordPress Para quem ficou curioso, nossa análise foi publicada na Revista Reunir, disponível aqui: http://revistas.ufcg.edu.br/reunir/index.php/uacc/article/view/525.
Recursos naturais no centro da agenda de competitividade brasileira.
Participei de uma discussão importante feita pelo Valor Econômico sobre os avanços da bancada ruralista no Brasil. Aqui: http://www.valor.com.br/cultura/5075760/os-ruralistas-ganham-forca
Quer comprar um título de investimento ligado a uma catástrofe natural?
Os Catastrophe Bonds, apelidados de “cat bonds”, surgiram em 1992 após o furacão Andrew causar uma perda na indústria de seguros de mais de US$ 15,5 bilhões. Tornou-se muito caro segurar riscos ligados a desastres naturais. Aí entram em cena os “cat bonds”. Trata-se de uma inovação do sistema financeiro global para lidar com riscos de desastres naturais. Esses títulos fazem parte da categoria “Insured Linked Securities” que têm por objetivo ajudar as resseguradoras, seguradoras, governos e empresas a gerenciar sua exposição a grandes riscos. É um tipo de securitização. Apesar de ter sido criado em 1992, as emissões cresceram de maneira mais acentuada a partir de 2007. Enquanto o mercado de “cat bonds” somava em 1997 US$ 714 milhões, em 2006 atingiu US$ 10 bilhões. Em 2007, saltou para US$ 17 bilhões, mantendo-se em torno de US$ 15 bilhões desde então, puxado por uma demanda crescente por fundos de pensão. Um crescimento impressionante, assim como os Green Bonds. A estruturação de “cat bonds” envolve: Se os eventos catastróficos previstos na emissão acontecerem (por exemplo, um furacão), o emissor fica com o dinheiro da emissão para cobrir suas perdas e os investidores perdem. Se não acontecerem, os investidores obtêm o retorno esperado. Basicamente, os investidores “apostam” contra a ocorrência desses eventos catastróficos, em geral, desastres naturais, incluindo furacões, terremotos e tufões. Já houve emissão de “cat bond” ligada a terrorismo. Depois do 11/09, grandes eventos enfrentam o risco adicional de um ataque terrorista. Para se proteger de um risco ligado ao cancelamento da copa de 2006 em função de um ataque terrorista, a FIFA emitiu um “cat bond” visando se proteger por meio do mercado de capitais, ao invés de uma seguradora. Para tanto, foi emitido um título de US$260 milhões transferindo o risco de um ataque terrorista para os investidores. Por que os investidores investem em “cat bonds”? Porque é uma forma interessante de fazer hedge. Os “cat bonds” não são correlacionados com variáveis macroeconômicas ou da indústria em geral. E é raro haver títulos que não estão correlacionados com variáveis macroeconômicas (como PIB, inflação, taxa de juros etc). Assim, esses títulos não refletem o que acontece em outros mercados financeiros; ao investir neles, o investidor corre “somente” o risco de ocorrência do evento em questão. Contanto que a catástrofe especificada na emissão não aconteça, os investidores continuam ganhando seu retorno. Mas, cabe destacar que esse é um tipo de risco bastante novo, que requer expertise específica para ser calculado. Afinal, não é nada trivial calcular a probabilidade de ocorrência de uma catástrofe climática, especialmente se considerarmos que dificilmente os dados históricos podem nos ajudar a projetar o futuro, em função das mudanças climáticas. Para saber mais: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167668712001345 http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0929119914000066
O “bem comum”
Em termos econômicos, as políticas públicas devem ser pensadas tendo em vista o bem-comum, conciliando os interesses dos indivíduos com os gerais da sociedade. Talvez seja justo dizer os contratos sociais modernos pedem isso. Mas o que é o “bem comum”? Trata-se de um juízo de valor. Reflete, em certa medida, preferências individuais, as informações disponíveis (que são distribuídas de maneira assimétrica), a posição na sociedade, interesses econômicos, entre outros fatores. Por onde começar? O filósofo John Rawls propôs o conceito do “véu da ignorância”. Jean Tirole explica o conceito: “Suponha que você ainda não tenha nascido e, portanto, não saiba qual será o seu lugar na sociedade, quais serão seus genes ou quem serão sua família, ou mesmo em que ambiente social, étnico, religioso ou nacional você nascerá. Agora pergunte-se: ‘Em que tipo de sociedade eu gostaria de viver, sabendo que posso ser tanto um homem quanto uma mulher, dotado de boa ou má saúde, de uma família rica ou pobre, bem ou mal educado, ateu ou religioso, uma pessoa que pode crescer em uma grande cidade ou no meio do campo, ou alguém que pode buscar realização no trabalho ou adotar um estilo de vida alternativo?’” A elaboração de políticas públicas é sempre influenciada, no mínimo, por aspectos técnicos, sociais, políticos, econômicos, tecnológicos, legais. Tomara que em algum lugar, ao longo desse processo, se possa incluir uma reflexão honesta sobre o bem comum, partindo do “véu da ignorância”.