Investidores, sustentabilidade e a carta do Laurence Fink do BlackRock.

Eu trabalho com as chamadas “finanças para a sustentabilidade” há vinte anos. No começo, essa era uma discussão que parecia muito exótica, totalmente desconectada dos propósitos de finanças. Nunca me pareceu assim, porque finanças e sustentabilidade têm no centro de suas preocupações algo em comum: a preocupação com os efeitos intertemporais das decisões tomadas. Mas enfim, deixemos essas reflexões teóricas para outros momentos. O ponto que eu queria ressaltar aqui é outro: para quem como eu vem nessa trajetória, a publicação nessa semana da carta do Laurence Fink (LF), CEO e fundador do BlackRock, para os CEOs de empresas foi um daqueles momentos (um dos, porque há vários outros) que nos apontam que a transição para a sustentabilidade está acontecendo. Slowly but surely.

Em primeiro lugar, quem é BlackRock?

Fundado há 30 anos, BlackRock é considerado o maior gestor de ativos do mundo. Em 31 dezembro de 2017, a casa tinha US$ 6,288 trilhões de ativos sob gestão (AUM, assets under management).  É uma casa gestora relevante no mercado de investimentos. Naturalmente, a principal preocupação com a decisões de investimento no BlackRock é trazer retorno para seus clientes, respeitando o dever fiduciário. A maior parte de seus fundos é passivo, apesar de terem fundos ativos também (US$1,7 trilhão).

Qual o conteúdo da carta do Larry Fink?

Em carta divulgada em 12 de Janeiro, intitulada “A sense of purpose”, Larry Fink começa dizendo que tem refletido sobre as questões mais urgentes para os investidores hoje e como o BlackRock precisa se adaptar para servir a seus clientes de maneira mais eficiente:

“As BlackRock approaches its 30th anniversary this year, I have had the opportunity to reflect on the most pressing issues facing investors today and how BlackRock must adapt to serve our clients more effectively. It is a great privilege and responsibility to manage the assets clients have entrusted to us, most of which are invested for long-term goals such as retirement. As a fiduciary, BlackRock engages with companies to drive the sustainable, long-term growth that our clients need to meet their goals.”

A carta continua para dizer que os governos têm sido falhos na preparação para o futuro em questões que envolvem aposentadoria, infraestrutura, automação, capacitação da força de trabalho, questões ambientais, impactos positivos nas comunidades. Por essa razão, a sociedade tem buscado o setor privado para que as empresas respondam aos desafios sociais da atualidade; as expectativas sobre as empresas nunca foram maiores:

“Society is demanding that companies, both public and private, serve a social purpose. To prosper over time, every company must not only deliver financial performance, but also show how it makes a positive contribution to society. Companies must benefit all of their stakeholders, including shareholders, employees, customers, and the communities in which they operate.”

A carta segue nesse tom concluindo que:

  • Sem um propósito nenhuma empresa (pública ou privada) pode atingir seu potencial completo;
  • Reconhecendo os desafios e limitações dos investidores passivos (explicação mais adiante), BlackRok está revendo seu processo de governança para poder influenciar o board das empresas que estão em índices relevantes para os investimentos da casa;
  • Reafirma a importância das empresas se engajarem com acionistas e outros stakeholders para discussões de longo prazo;
  • Há um apelo na carta para as empresas se envolverem com discussões de longo prazo.

E aí? Legal, não é?

É bom lembrar que essa é a quarta carta LF nesse tom (2015, 2016, 2017 e agora, 2018). Então, será que são só boas intenções em uma carta com um grande apelo de relações públicas? Talvez sim, talvez não. Só o tempo dirá.

Em minha opinião, a carta do LF sinaliza algo muito importante: o crescimento do gestor de ativos/investidor ativista.

O que tem de interessante na carta é exatamente a honestidade com que LF apresenta os desafios para o BlackRock ser um acionista mais ativo (ou ativista) em relação às questões de longo prazo. Como a maior parte dos fundos da casa é passivo, a princípio, há pouco que o gestor pode fazer. Em fundos ativos, o gestor pode vender as ações de uma empresa investida caso não concorde com a direção estratégica que o board esteja dando. Mas em fundos passivos o gestor não pode manifestar seu descontentamento vendendo as ações se a empresa permanecer no índice. Pode, entretanto, se engajar com o board e votar.

Portanto, é possível que vejamos em um horizonte de médio prazo o crescimento da figura do gestor de ativos/investidor ativista:

“This responsibility goes beyond casting proxy votes at annual meetings – it means investing the time and resources necessary to foster long-term value.”

Esse é um movimento que vem crescendo. Como apontei aqui, aqui e aqui esse tema tem crescido na comunidade de investidores (apesar de ainda não haver motivos para dizermos que “tudo mudou”). O próprio BlackRock teve um papel decisivo na reunião geral de acionistas da Exxon Mobil em Dallas em 2017 solicitando que a empresa mostrasse quais medidas estava tomando para contribuir para que as mudanças climáticas ficassem em torno dos 2oC. Como disse o Andrew Winston, autor de Green to Gold, “essas vozes passivas estão ficando cada vez mais ativas”.


Nosso último relatório (do GVces em parceria com WWF) sobre a ligação entre investidores estrangeiros e desmatamento no Brasil aponta alguns desafios que os investidores estrangeiros mencionaram no engajamento com empresas brasileiras. Veja o que diz esse investidor:

“…é difícil contatar as empresas no Brasil porque elas nem sempre querem conversar conosco, apesar de sermos proprietários da empresa. Então é uma das coisas que infelizmente não é fácil de engajar. Requer, o que tenho certeza que vocês sabem, mais esforço para engajar essas empresas porque geralmente elas não querem falar com investidores quando estão fazendo alguma coisa errada.” (pg. 64 desse relatório aqui: http://mediadrawer.gvces.com.br/publicacoes-2/original/wwf_whitepaper2017_fgv_v07b.pdf)

Esse movimento do investidor ativista vai chegar no Brasil. Ainda mais quando consideramos que algumas empresas brasileiras já têm emitido Green Bonds. Mas, permanece a reflexão de sempre: vamos precisar aprimorar os mecanismos de monitoramento, relato, transparência e verificação das empresas operando no Brasil para que possam se beneficiar da transição para a sustentabilidade por parte das finanças internacionais. 


Para saber mais:

https://www.blackrock.com/corporate/en-us/investor-relations/larry-fink-ceo-letter
https://hbr.org/2018/01/does-wall-street-finally-care-about-sustainability
https://www.nytimes.com/interactive/2018/01/16/business/dealbook/document-BlackRock-s-Laurence-Fink-Urges-C-E-O-s-to-Focus.html?dlbk
https://www.washingtonpost.com/news/energy-environment/wp/2017/05/31/exxonmobil-is-trying-to-fend-off-a-shareholder-rebellion-over-climate-change/?utm_term=.580f0c99c875