Mudança institucional, sustentabilidade e o mercado de investimentos.

O progresso em uma determinada sociedade (econômico, social, político, ambiental etc) está fortemente relacionado à qualidade das instituições presentes nessa sociedade.

Instituições são “as regras do jogo em uma sociedade; as restrições criadas que delimitam o comportamento humano. Por consequência, elas ajudam a estruturar os incentivos que incidem sobre as relações humanas, sejam elas políticas, sociais ou econômicas. Mudanças institucionais moldam o jeito que as sociedades evoluem ao longo do tempo e, portanto, são chave para se compreender mudanças históricas.”

Esse é um trecho do livro “Institutions, institutional change and economic performance” de um dos maiores pesquisadores sobre a importância das instituições para o progresso econômico: Douglass North, prêmio Nobel de Economia em 1993.

Cabe aqui destacarmos que instituições, segundo North e outros pesquisadores, diferem de organizações. Geralmente usamos a palavra “instituições” como sinônimo de “organizações”, mas são conceitos diferentes. As instituições podem ser formais ou informais – são tudo aquilo que moldam o comportamento humano: códigos de conduta, convenções sociais, o que as pessoas entendem serem o comportamento certo e o errado em determinado tempo e sociedade. As instituições são as regras do jogo; as organizações são os jogadores,  criadas para jogar o jogo.

Em minha opinião, se quisermos ter algum vislumbre de como será o futuro, esse grande desconhecido, é preciso olhar com atenção como estão mudando as instituições. Mais até do que as organizações. Instituições podem ser mudadas rápida ou lentamente, mas é a mudança institucional que vai moldando o futuro e a forma que terão as organizações. Especialmente para quem se interessa por estratégia e risco é fundamental observar as tendências do comportamento humano, mudanças nos valores sociais e nas regras formais e informais sobre o que é ou não aceitável. Escravidão, por exemplo: houve um tempo na história humana que foi uma instituição aceita; e houve um tempo que passou a ser condenada.

Sustentabilidade e mudança institucional

Eu venho trabalhando no campo da sustentabilidade há cerca de 20 anos. Olhando a foto pode parecer que o tema tem avançado pouco, mas analisando o filme é nítido como esse tema tem entrado na vida social, política e econômica globalmente. Em alguns casos com mais rapidez, em outros com menos.

Esse artigo de hoje no Valor Econômico escrito pelo Eid e pelo Gazzotti, ambos da Itaú Asset Management, é primoroso (https://www.valor.com.br/financas/5688099/nova-fronteira-dos-investimentos-responsaveis). Não apenas porque eles apresentam de maneira cristalina um movimento crescente de integração de questões de governança, sociais e ambientais nas decisões de investimento, mas principalmente porque junto com diversos outros “sinais de fumaça” (alguns deles apresentei aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) indicam que a sustentabilidade integra uma mudança em relação às regras do jogo que impactavam a competitividade em décadas passadas (mudança institucional, portanto).

Esse é um recado importante para gestores de empresas conectados com a gestão de longo prazo: talvez essa mudança não seja sentida integralmente amanhã, mas não pode ser ignorada.


Para saber mais:

https://scholar.google.com/citations?user=-LcMZqMAAAAJ&hl