Estudo de caso em sustentabilidade: e quando o risco reputacional está no cliente?
Quando se pensa em riscos no âmbito da gestão para a sustentabilidade é comum primeiro analisar a cadeia de fornecimento. Tanto é assim que uma boa prática da gestão para a sustentabilidade é ter um processo para engajamento e acompanhamento dos fornecedores. Mas às vezes o risco pode estar no cliente ou no produto da empresa. Instituições financeiras estão bem familiarizadas com essa perspectiva de risco – ou seja, quando o risco está no cliente-, em função da regulação chamada “Know Your Customer” (KYC) que visa combater a lavagem de dinheiro e evitar o financiamento do terrorismo e outras práticas ilícitas. Lavagem de dinheiro é um negócio de grandes proporções e está associado ao tráfico de drogas, contrabando de produtos e tráfico de pessoas, terrorismo, entre outros crimes. A lavagem de dinheiro acontece por meio do sistema financeiro por ser global e altamente tecnológico, o que viabiliza a transferência entre contas de forma ágil. Esse tema vem sendo discutido internacionalmente desde 1950, mas ganhou força principalmente a partir dos ataques do 11 de Setembro de 2001. Em nível internacional quem discute o KYC é chamada Financial Action Task Force (FATF) sob a OCDE, que tem uma série de recomendações para que as instituições financeiras coíbam a lavagem de dinheiro. No Brasil, há um conjunto de regulações do Banco Central do Brasil, Conselho Monetário Nacional e CVM sobre esse tema. Temos também a Lei de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/98). Resumindo, o KYC exige que as instituições financeiras cumpram uma série de requisitos e adotem medidas para obter informações sobre a identidade verdadeira de seus clientes e a origem de seu patrimônio. Fora do setor financeiro discute-se pouco o risco de cliente na gestão para a sustentabilidade, na minha opinião. Nesse vídeo, eu discuto o caso recente de uma empresa de consultoria em que o dano reputacional foi causado pelo seu cliente, uma indústria farmacêutica. O objetivo do vídeo é refletir sobre que aprendizados podemos tirar do caso em questão para a gestão para a sustentabilidade.
O que são finanças sustentáveis?
[Texto originalmente publicado em noomis.febraban.org.br em fevereiro de 2021] Acompanhando o noticiário financeiro recente você certamente se deparou com alguns termos cada vez mais frequentes: ESG, Green Bonds, Sustainability-Linked Bonds, social bonds, greenwashing, diversidade. Um observador desse movimento pode estar se perguntando: afinal, o mundo financeiro passou a se interessar pelo que acontece no meio ambiente e com questões sociais? A resposta é sim e já há algum tempo. E para explicar esse fenômeno é importante entender que ele faz parte de um ramo das finanças: as chamadas finanças sustentáveis. Talvez você já conheça o termo, talvez não. Mas finanças sustentáveis – tradução do termo em inglês original “sustainable finance” – é o guarda-chuva sob o qual estão todos esses termos. Mas o que são finanças sustentáveis? Antes de definirmos o termo, vamos dividi-lo em duas partes: finanças e sustentáveis. Vamos fazer uma equação? Finanças sustentáveis = finanças + sustentabilidade. O que são finanças? O termo amplo “Finanças” é geralmente apresentado como a arte e a ciência da gestão do dinheiro[1]. Todas as pessoas e organizações em uma sociedade lidam com dinheiro. Finanças é o campo do conhecimento que lida com os processos, instituições, mercados, instrumentos associados à transferência de dinheiro entre os atores de uma sociedade. Envolve, portanto, pessoas, instituições, empresas, agentes governamentais, o mercado. Acabei de apresentar a definição mais comum de finanças, mas eu prefiro a dada pelo mestre Robert Shiller, Nobel de Economia em 2013: “Em seu sentido mais amplo, finanças é a ciência da arquitetura de metas – da estruturação dos arranjos econômicos necessários para atingir um conjunto de metas e da administração dos ativos necessários para essa realização.” [2] As pessoas têm metas como aposentar-se ou pagar pelos estudos dos filhos; as empresas têm metas de investimentos; os governos têm metas como criarem hospitais ou um novo sistema de seguridade social. Todos eles precisam de recursos para o atingimento dessas metas e o papel das finanças é justamente contribuir para isso. Conta-nos Shiller que a palavra “finanças” deriva de um termo em latim que significa meta. Os objetivos que as finanças vão perseguir são originados em cada um de nós, em nossos desejos, sonhos e planos. Refletem “nossos interesses em nossa carreira, esperanças para nossas famílias, ambições para nossos negócios, aspirações para nossa cultura e ideais para nossa sociedade. As finanças em si não nos dizem quais devem ser os objetivos.”[3] Complementos para o termo “finanças” surgem para diferenciar os diferentes recortes deste amplo campo. Por exemplo, “finanças corporativas” para tratar da relação entre empresas e dinheiro; “finanças pessoais” para a relação entre as pessoas e o dinheiro; “finanças públicas”, entre governo e o dinheiro, incluindo o sistema tributário; “sistema financeiro” para o conjunto de instituições que promovem a intermediação financeira. Há também adjetivos temáticos para as finanças. Por exemplo, “finanças comportamentais” que considera a influência da psicologia nas decisões financeiras ou “finanças da infraestrutura” que se debruça sobre formas de viabilizar financeiramente especificamente grandes projetos de infraestrutura. Há dois conceitos fundamentais em finanças: o chamado “valor do dinheiro no tempo” e risco-retorno. O “valor do dinheiro no tempo” trata da crença de que R$ 10,00 hoje são preferíveis a R$ 10,00 daqui a um ano. Chama-se isso de preferência temporal. Os gestores financeiros preferem receber dinheiro o mais cedo possível em função das incertezas associadas ao decorrer do tempo e do potencial de investimento desse recurso. Ao receber esses R$ 10,00 hoje eu posso aplicá-lo e me beneficiar dos juros ganhos com essa aplicação. Já a noção de risco-retorno diz respeito aos dois lados de uma mesma moeda. Cada decisão financeira tem um retorno e um risco a ela associada. Risco é a variabilidade de retornos, a possibilidade de perdas; e retorno é o ganho ou perda total sofrido por um investimento em um certo período. Analistas financeiros buscam sempre entender qual o retorno ajustado ao risco de uma determinada decisão financeira. As preocupações com aspectos sociais e ambientais nas decisões financeiras são tão antigas quanto as próprias atividades de investir e gerir. Nos séculos 17 e 18, por exemplo, os Quackers e os Metodistas já tinham critérios sociais e ambientais tratando de quais atividades poderiam investir. Na década de 1970, houve uma campanha de desinvestimento por parte de investidores descontentes com o sistema do apartheid na África do Sul [4]. Nas chamadas finanças corporativas, há décadas gestores de empresas se preocupam com filantropia e responsabilidade social corporativa. O “sustentável” em “finanças sustentáveis” Sustentável é um adjetivo derivado dos conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. Nosso modelo de produção e consumo após a Revolução Industrial trouxe muitos avanços materiais nesses poucos mais de 200 anos de história. Mas trouxe também a superação de alguns limites ecossistêmicos e muitos desafios sociais. Há uma ampla compreensão de que precisamos adequar nossos sistemas econômicos aos limites planetários e resolver importantes problemas sociais. Esse é o futuro desejado, em que vivamos sustentavelmente. O caminho para chegar até lá precisará contar com políticas econômicas que visem a sustentabilidade: o desenvolvimento sustentável, termo cunhado no relatório da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU na década de 1980. No fundo, estamos falando de possibilitar uma trajetória econômica que vise sair desse estado de insustentabilidade para um estado de maior sustentabilidade. Para que essa transição aconteça serão necessários investimentos e maciça alocação de capital em inovação e atividades produtivas mais alinhadas aos princípios da sustentabilidade. A tradução das preocupações com o desenvolvimento sustentável no mundo financeiro ganhou maior tração, entre outros eventos, após a fundação em 2003 dos Princípios do Equador (critérios socioambientais para concessão de crédito na modalidade project finance) e a criação em 2005 pela ONU dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI, na sigla em inglês), engajando tanto as atividades de crédito como investimentos em preocupações socioambientais. Voilá: as Finanças Sustentáveis Finanças sustentáveis, portanto, buscam alocar dinheiro em atividades que contribuam para a sustentabilidade, incorporando o valor do dinheiro no tempo e as noções de risco – retorno. Por essa razão, são algumas as divisões das finanças sustentáveis.
FT: Brazil: The road to Sustainability
“Poucas pessoas têm imaginação suficiente para a realidade”, frase atribuída a Goethe. Para mim essa frase resume muito bem esse interminável e indescritível ano de 2020. Está no rol de realidades que esse ano nos trouxe (mais acontecimentos tristes que felizes, infelizmente) o crescente interesse por parte dos investidores internacionais com o que acontece nos ecossistemas brasileiros. Estão todos de olho em temas como queimadas e desmatamento. Um exemplo desse interesse crescente é esse caderno especial do Financial Times lançado hoje (08/12/2020) sobre “Brazil : The road to Sustainability”. https://www.ft.com/reports/brazil-sustainability São seis páginas discutindo alguns dos nossos mais importantes desafios ambientais, algumas oportunidades e boas práticas: queimadas na Amazônia e no Pantanal; nossa situação no acesso a serviços de saneamento – o que o FT chamou “de desgraça nacional” (e é mesmo); o marco do saneamento; o potencial da tecnologia aplicada ao campo em reduzir problemas ambientais; a Petrobrás e a sua não crise de identidade “nós somos uma empresa de óleo”; o plástico verde da Braskem; entrevista com o vice-presidente Mourão; mineração e seus impactos ambientais; e como o setor empresarial está encarando aspectos ESG, com uma mesa redonda realizada com Marina Grossi, Walter Schalka, Ilan Goldfajn, Wesley Batista Filho e eu. Foi um prazer conversar com esses importantes porta-vozes do mundo empresarial que apostam em trajetórias de negócios mais alinhadas aos princípios da sustentabilidade. Está claro que precisamos escolher um projeto de país, uma agenda estratégica de longo prazo que nos ajude a atingir todo o nosso potencial. Do contrário, o fundo do poço vai ficando cada vez mais fundo.
Sobre Machado de Assis e ferrovias.
Há um conto de Machado de Assis chamado “Evolução” que se desenrola a partir de uma conversa a respeito de estradas de ferro no Brasil. Em particular sobre uma frase dita pelo personagem (e narrador), Inácio, que é o ponto central da trama: “Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.” O conto foi publicado pela primeira vez em 1884, mas percebam que o desafio de avançar a malha ferroviária no Brasil continua atual. Avançar a malha ferroviária no país, além dos óbvios benefícios logísticos, traz ganhos do ponto de vista de emissão de GEE, ao evitar novas rodovias. Por isso, nós no FGVces nos lançamos a compreender as barreiras que dificultam a canalização de recursos privados para esses investimentos. *** Publicamos recentemente um relatório de pesquisa em que analisamos barreiras a serem superadas para maior canalização dos recursos privados para o setor ferroviário brasileiro. Dois desafios foram examinados: – As barreiras que dificultam a atração de empresas locais e estrangeiras (investidores diretos) para projetos de construção e manutenção da infraestrutura ferroviária e operação de serviços de transporte ferroviário de carga no país; – As barreiras que dificultam a atração de investidores institucionais do mercado de capitais, tanto nacionais como estrangeiros, para projetos e empresas do setor ferroviário no Brasil. A publicação é parte do projeto “Fortalecendo a Implementação da Política Climática: Aprendizado Empírico Comparativo e Criação de Vínculo com o Financiamento Climático”, coordenado pelo Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW Berlim), que tem o objetivo de investigar como o financiamento climático internacional pode contribuir para a implementação das Contribuições Nacionalmente Determinada (NDC) do Acordo de Paris globalmente e nos países parceiros. O relatório pode ser lido aqui: http://gvces.com.br/barriers-to-attracting-direct-and-capital-market-investments-for-railway-infrastructure-in-brazil?locale=pt-br
Sustentabilidade no Banco Central do Brasil e na Comissão de Futuros dos EUA
No dia 08/09/2020 houve dois eventos interessantes para as chamadas finanças sustentáveis (FS). Apesar de não relacionados, ambos sinalizam o momento atual da discussão sobre FS e, de certa forma, nos dão pistas sobre o futuro desse tema. São eles: o lançamento do pilar sustentabilidade da agenda BC# e o lançamento, pela U.S. Commodity Futures Trading Commission, do relatório sobre risco climático para o sistema financeiro americano. O pilar sustentabilidade da agenda BC# A agenda BC# é uma agenda com inovações regulatórias importantes que têm por objetivos aumentar a participação privada nos fluxos de financiamento e investimentos, desenvolver maior democratização financeira e dar maior transparência ao SFN. Tem quatro dimensões: inclusão, competitividade, transparência e educação financeira. Para atingir esses objetivos, o Bacen tem adotado inovações tecnológicas importantes, como o PIX e o Open Banking. O pilar sustentabilidade da agenda BC# foi lançado com o objetivo de promover a agenda de finanças sustentáveis no SFN, estimular o gerenciamento adequado dos riscos socioambientais e climáticos no SFN e integrar esses temas nas decisões do Bacen, como por exemplo, na sua gestão de reservas. Ao apresentar o pilar sustentabilidade, o Bacen reconhece que o tema das mudanças climáticas representa um risco para a estabilidade de preços e resiliência do SFN. Entre os pontos anunciados pelo Bacen como parte da agenda de sustentabilidade, destacam-se: – O apoio à implementação das recomendações do TCFD; – Aprimoramento de riscos socioambientais na gestão integrada do Bacen; – Entrada do banco na rede Network for Greening the Financial System (NGFS), rede de bancos centrais dedicados a incorporar preocupações com sustentabilidade; – Estruturação de coleta de informações no SFN sobre exposição das instituições financeiras a riscos socioambientais; – Monitoramento de riscos climáticos e testes de estresse; – Criação de um bureau verde de crédito rural em modelo open banking. Esse ponto me parece especialmente relevante porque, por ser open banking, permitirá que diversos atores possam oferecer soluções informacionais ao mercado, atendendo à uma demanda crescente por mais dados com relação a temas “verdes”, a menores custos. Com essa iniciativa, o Bacen manda um importante sinal ao mercado, alinhando-se aos esforços internacionais de demais supervisores e reguladores de sistemas financeiros, contribuindo para que o SFN esteja mais resiliente para os riscos socioambientais. Managing Climate Risk in the U.S. Financial System A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) é a responsável pela regulação do mercado americano de derivativos. A comissão encomendou ao seu comitê de riscos de mercado um estudo sobre os potenciais impactos das mudanças do clima no sistema financeiro americano. O relatório da comissão conclui que as mudanças do clima representam um risco importante para o sistema financeiro americano. E mais: “This reality poses complex risks for the U.S. financial system. Risks include disorderly price adjustments in various asset classes, with possible spillovers into different parts of the financial system, as well as potential disruption of the proper functioning of financial markets. In addition, the process of combating climate change itself—which demands a large-scale transition to a net-zero emissions economy—will pose risks to the financial system if markets and market participants prove unable to adapt to rapid changes in policy, technology, and consumer preferences. Financial system stress, in turn, may further exacerbate disruptions in economic activity, for example, by limiting the availability of credit or reducing access to certain financial products, such as hedging instruments and insurance.”(p.7) Entre as recomendações do relatório estão: – O estabelecimento de um preço para o carbono, consistente com as metas de redução previstas no Acordo de Paris; – Todas as principais agências reguladoras federais deveriam incorporar riscos climáticos em seus mandatos; – Os supervisores financeiros devem exigir que instituições financeiras bancárias e não bancárias considerem os riscos climáticos em sua gestão de risco; – Tanto supervisores como instituições financeiras devem criar programas pilotos para testes de estresse associados aos impactos financeiros das mudanças do clima; – Os reguladores devem exigir que as empresas listadas divulguem as emissões de gases de efeito estufa seguindo os Escopos 1 e 2. O que esses dois movimentos nos dizem? Esses dois eventos relacionados a supervisores e reguladores do sistema financeiro apontam uma tendência clara de incorporação da importância de temas socioambientais na supervisão financeira. Os dois eventos têm graus diferentes de importância para a efetiva supervisão financeira. O do Bacen é uma indicação clara de demandas para o setor financeiro. Já o da CFTC é um estudo, conduzido pelo comitê de riscos de mercado da CFTC e ainda não endossado institucionalmente pela CFTC, que busca informar os formuladores de políticas públicas sobre a relação entre mudança do clima e riscos financeiros. Mesmo assim, ambos indicam fortes sinais quanto a direção que o sistema financeiro deve seguir nos próximos anos no que tange a incorporação de riscos socioambientais em seu processo de gerenciamento de riscos. Nesse vídeo aqui fiz uma breve análise dos dois documentos. Para saber mais: Clique para acessar o Agenda_Sustentabilidade_8.9.20.pdf Clique para acessar o 9-9-20%20Report%20of%20the%20Subcommittee%20on%20Climate-Related%20Market%20Risk%20-%20Managing%20Climate%20Risk%20in%20the%20U.S.%20Financial%20System%20for%20posting.pdf
Desafios para gestão da sustentabilidade em um cenário pós pandemia.
Todos sabemos que há muitas incertezas em torno do momento pelo qual estamos passando. Mesmo assim, nesse vídeo, conversamos sobre as nossas perspectivas sobre o futuro da gestão para a sustentabilidade, principalmente considerando o cenário econômico pós covid-19 e as reflexões e aprendizados trazidos pela pandemia para as empresas e investidores. Surpreendentemente, a agenda ESG por parte dos investidores avançou durante a pandemia reforçando, por sua vez, a importância da agenda de sustentabilidade para as empresas. Por outro lado, o cenário econômico é desolador. O IBGE divulgou em 01/09/2020 a retração de 9,7% para o PIB do segundo trimestre de 2020. As expectativas do mercado giram em torno de retração de 5 a 8% para o ano. As empresas estão às voltas com sua sobrevivência, tentando recuperar o faturamento e margens deteriorados com a pandemia. E a gestão para sustentabilidade nesse cenário? Nessa conversa, filmada no fim de agosto de 2020, procuramos responder a duas perguntas: Após a pandemia, quais os principais desafios que as empresas vão enfrentar em sustentabilidade, na opinião de vocês? Na experiência de vocês, qual a melhor forma de “vender” um projeto de sustentabilidade para as altas lideranças? Rodrigo Oliveira Administrador de empresas pela FGV-EAESP, com MBA Executivo Financeiro pelo INSPER-SP e Mestrado em Sustentabilidade pela FGV. Atuou nas áreas de Marketing e gestão comercial em empresas como Natura, Unilever e Suzano. Rodrigo atua principalmente com foco na gestão econômica e investimentos voltada para resíduos sólidos. É presidente da empresa de engenharia FRAL Consultoria, que realiza planos e projetos em meio ambiente e fundador da startup de logística reversa Green Mining. Regina Magalhães Diretora do segmento de mobilidade da Schneider Electric para América do Sul. Trabalhou por mais de 10 anos como consultora em estratégias de negócios, inovação e sustentabilidade em empresas de vários segmentos. Foi especialista da International Finance Corporation (World Bank Group). PhD em ciência ambiental, com pesquisas sobre sustentabilidade no mercado financeiro, e foi professora de finanças sustentáveis na FGV. Assista o vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=uFYkaVWkfXM&t=247s
Tecnologia e Sustentabilidade
A tecnologia tem um papel fundamental na história humana. Tecnologia é a interface humana ativa com o mundo físico. É a “organização do conhecimento para o atingimento de propósitos práticos” (Mesthene, Emmanuel). Às vezes esse conhecimento é cristalizado em um produto (como um martelo, um piano ou Iphone) ou em um processo (como agricultura de alta precisão). Assim como o próprio conhecimento, a tecnologia se acumula. Os grandes avanços tecnológicos, as grandes inovações se dão no acúmulo desse conhecimento, na conexão entre conhecimentos adquiridos no passado e no presente, como grandes building blocks que se unem para achar soluções a um problema da humanidade (McAfee, A. More fom less. 2019). A história humana é a história de avanços tecnológicos, inovações. Particularmente após esses pouco mais de 200 anos de Revolução Industrial. As novas tecnologias digitais estão nos ajudando a superar as limitações do nosso conhecimento atual e do nosso poder mental. Tecnologias como inteligência artificial e machine learning estão nos levando a novas fronteiras do possível. Avanços em robótica, biotecnologia, blockchain e internet das coisas nos levarão a outros níveis de automação e conhecimento aplicado. Quaisquer estratégias que tenham por objetivo nos levar a um mundo menos insustentável, que considerem a produção e consumo dentro dos limites críticos dos ecossistemas, precisam levar em conta as tecnologias emergentes desse mundo digital. No Brasil, infelizmente, essa discussão ainda é incipiente. Inovamos pouco, cerca de 1% do PIB. A edição 2020 (que traz dados de 2017) da Pesquisa de Inovação (PINTEC) – realizada pelo IBGE a cada três anos – aponta que os principais obstáculos para inovação no Brasil são: riscos econômicos excessivos, elevados custos da inovação, falta de pessoal qualificado e escassez de fontes de financiamento. Também, no Brasil as principais atividades inovativas estão no P&D interno e na aquisição de máquinas e equipamentos. Treinamento de pessoal representa apenas cerca de 3% das atividades. Há muito que avançar nessa discussão no Brasil. Tenho feito uma série de conversas no YouTube com a Regina Magalhães sobre os desafios de aproximação entre tecnologia e sustentabilidade. Para vê-los basta clicar na playlist “Transformação digital e sustentabilidade”: https://www.youtube.com/channel/UC9WenQoke5QB1Q2-6dgbNyQ/playlists?view_as=subscriber Imagem de capa:
Sustentabilidade e transformação digital: o desafio da aproximação.
[Texto escrito por Regina Magalhães e Annelise Vendramini] Em nossa live no dia 20 de maio, 2020 conversamos sobre um tema que há algum tempo nos debruçamos com muito interesse: a relação entre sustentabilidade e transformação digital. Conversamos sobre as dificuldades que as empresas enfrentam para ter uma estratégia que utilize a transformação digital para tornar os negócios mais sustentáveis. O vídeo na íntegra está disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=23Dzm3ow86I Observamos em nossos contatos com executivos, consultores e alunos de MBAs e mestrados que atuam em grandes empresas brasileiras que os dois temas estão em crescimento, sendo parte importante da agenda da alta gestão e dos conselhos de administração. Porém, observamos também que os dois temas raramente são integrados em uma mesma estratégia. Antes de responder por que isso acontece, discutimos primeiro porque os dois temas deveriam estar no centro das estratégias de negócios. Começamos nossa conversa definindo o termo “transformação digital” e sua importância para a estratégia empresarial. Com relação à transformação digital, mudanças dramáticas e muito rápidas nos mercados foram provocadas pelo surgimento de empresas como Apple, Amazon, Netflix, Uber, dentre outras. A história da inovação disruptiva deixa claro para executivos e acionistas de empresas de todo os setores que mercados inteiros podem ser transformados em poucos anos. Atualmente, transformações no mercado financeiro, na indústria automotiva, na construção civil, na indústria química começam a mostrar o perfil de uma nova economia, cada vez mais digital. Mais do que mudanças tecnológicas ou em produtos específicos, modelos de negócios baseados no uso inteligente de dados, na oferta de serviços ao invés da venda de produtos e mercados estruturados por meio de plataformas digitais, transformam todo o ecossistema de negócios e a forma como os usuários se relacionam com as empresas. Preocupações com o impacto desses novos modelos de negócios e das novas tecnologias na oferta de empregos, na privacidade estão provocando pressões sociais para que os novos negócios digitais tenham como ponto de partida os propósitos sociais e a ética. Depois, discutimos os conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. Segundo o conceito de sustentabilidade, nosso modelo de produção e consumo precisam ser redimensionados para operar dentro dos limites ecológicos dos ecossistemas que sustentam a vida humana no planeta. E nesse processo, gerar bem-estar social para todos os habitantes do planeta, em suas diferentes realidades. Para se chegar nesse ponto desejável, haverá uma (longa, talvez?) transição, que demandará inovação e desenvolvimento de novos modelos de negócios que estejam mais alinhados aos conceitos associados à sustentabilidade. As novas tecnologias e os novos modelos de negócios podem promover uma grande redução no consumo de energia, de água, minerais, aumentando a produtividade e a eficiência na produção, viabilizando uma economia circular e ainda negócios que contribuam para a inclusão social. A transformação digital pode viabilizar a formação de negócios sustentáveis que sejam ao mesmo tempo lucrativos. Porém, vemos um distanciamento entre os dois temas em grande parte das empresas, inclusive nas empresas multinacionais. Executivos de sustentabilidade não buscam inserir suas agendas nas estratégias de transformação digital e executivos das áreas digitais raramente se preocupam com os impactos sociais e ambientais das tecnologias e da forma como os negócios são estruturados. É comum entre as lideranças das empresas a dificuldade de promover essa integração. Terminamos a conversa recomendando aos executivos de sustentabilidade que estejam atentos à essa importante agenda de mudança nos modelos de negócios. A transformação digital vai também dar outra “cara” às áreas de sustentabilidade.
Transformação digital e a Covid-19.
Em 2018, Regina Magalhães e eu escrevemos esse artigo aqui discutindo a Quarta Revolução Industrial e seus potenciais impactos sobre a sustentabilidade. Apesar de ter sido escrito em 2018, muito do artigo permanece atual. A atual pandemia da Covid-19 acentuou alguns aspectos da transformação digital, expôs alguns de seus riscos e acelerou algumas mudanças. Nessa conversa, filmada em abril de 2020, falamos sobre: – A transformação digital no contexto da pandemia; – Potências, limitações e resistências em relação ao uso da tecnologia; – Desenvolvimento tecnológico no Brasil; – Adaptação das empresas no contexto da pandemia; – Transformação digital e gênero; -Segurança de dados e riscos associados à tecnologia. Link para o vídeo no youtube: https://youtu.be/UNOrB3JDffI
Reflexões sobre a COVID-19 e as estratégias corporativas para a sustentabilidade.
Enquanto escrevo esse texto (19/04/2020), a história da COVID-19 continua a se desenrolar, longe de um fim. O painel da Organização Mundial de Saúde (OMS) que reporta o estado atual da doença, mostra hoje que são mais de 2 milhões de casos no mundo e mais de 152.000 mortes. Infelizmente, estamos longe ainda de estabilizarmos o impacto da pandemia sobre a saúde humana e os sistemas de saúde pública. Além desse aspecto, sabemos que essa pandemia tem e continuará tendo impactos econômicos importantes. O Fundo Monetário Internacional projeta para o ano de 2020 retração global de 3%, com os países avançados retraindo 6,1%. A projeção para a China é de crescimento de 1,2%, bastante inferior ao crescimento verificado desde o ano de 1976, quando morreu Mao Tsé-Tung (líder da Revolução Chinesa) e um período de reformas levou à China a se tornar a segunda maior economia do mundo. Para o Brasil, a projeção do FMI é de retração de 5,3% em 2020. O cenário que temos à frente, tanto em termos de saúde humana e gestão da saúde pública, como em termos econômicos é difícil. Claro, nesse momento em que a história se desenrola perante nossos olhos, é um risco para qualquer analista fazer quaisquer previsões. Mas projeções nos ajudam a desenhar cenários e o objetivo dos cenários não é nos mostrar exatamente como será o mundo, mas nos ajudar a preparar para possíveis diferentes realidades. É colocar em prática a máxima do “prepare-se para o pior e torça para o melhor”. Por isso, mesmo com todas as incertezas em torno do que será realmente o mundo em 2020, vale já uma reflexão sobre caminhos para os gestores corporativos de sustentabilidade. Essa conversa é longa e o assunto complexo. Para fazer isso de maneira adequada, teríamos que considerar muitos elementos, tais como transformação digital, sistema financeiro, impactos sobre as cadeias de valor, aspectos sociais da crise, entre outros. Mas para um início de conversa, a primeira proposição que me parece razoável é que os gestores de sustentabilidade, mais do que nunca, precisam rapidamente explicitar o valor econômico criado ou protegido pelos programas e projetos de sustentabilidade. As empresas, como resposta à dupla crise, vão voltar “ao modo sobrevivência”. E o que significa isso? Significa cortar tudo o que não é essencial para a manutenção dos negócios; tudo o que não é core. Na minha experiência profissional já passei por alguns momentos desse tipo. Obviamente, nenhum com a gravidade da COVID-19, mas já passei por vários de volta “ao modo sobrevivência”. Quando isso acontece, são momentos muito difíceis para todos que fazem parte de uma empresa porque nenhum líder gosta de cortar orçamento, reduzir equipes, abrir mão de projetos. Mas muitas vezes é necessário para que o negócio sobreviva à crise. São nesses momentos que processos que asseguram a existência no longo prazo, como os de sustentabilidade, correm o risco de se perder. No modo sobrevivência, o foco é quase exclusivo no curto-prazo porque os desafios de superar o curto prazo são enormes. Por isso, os gestores de sustentabilidade precisam rapidamente indicar as contribuições dos projetos de sustentabilidade para a continuidade do negócio, para o que é essencial. Em um momento de grave crise social como o que estamos passando, os projetos de sustentabilidade têm um papel fundamental a desempenhar. Nesse sentido, é possível também que a pandemia revele a importância dos projetos de filantropia corporativa, sejam eles conduzidos diretamente pelas empresas ou via institutos e fundações. A pandemia nos mostrou que nossa sociedade precisa se preparar para um risco de saúde pública. Portanto, talvez as empresas percebam que há valor em se engajar com outros atores sociais (ONGs, outras empresas, associações de classe, por exemplo) para ajudar o governo a ter sistemas de saúde preparados para uma crise de saúde pública. O segundo setor pode contribuir para que o governo estabeleça a agenda de risco de pandemias como prioritária. Empresas podem investir em temas importantes para essa agenda, por meio de seus processos de Responsabilidade Social Corporativa ou filantropia, por exemplo. Fazer investimentos em organizações que atuem com biossegurança, P&D, imunização, laboratórios, criação e integração de base de dados, entre outros. Falo brevemente sobre esses assuntos nesse vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=RmS-bKhCOj8 Agradeço ao Freepik pela imagem. <a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/fundo”>Fundo foto criado por kjpargeter – br.freepik.com</a>