No dia 08/09/2020 houve dois eventos interessantes para as chamadas finanças sustentáveis (FS). Apesar de não relacionados, ambos sinalizam o momento atual da discussão sobre FS e, de certa forma, nos dão pistas sobre o futuro desse tema. São eles: o lançamento do pilar sustentabilidade da agenda BC# e o lançamento, pela U.S. Commodity Futures Trading Commission, do relatório sobre risco climático para o sistema financeiro americano.
O pilar sustentabilidade da agenda BC#
A agenda BC# é uma agenda com inovações regulatórias importantes que têm por objetivos aumentar a participação privada nos fluxos de financiamento e investimentos, desenvolver maior democratização financeira e dar maior transparência ao SFN. Tem quatro dimensões: inclusão, competitividade, transparência e educação financeira. Para atingir esses objetivos, o Bacen tem adotado inovações tecnológicas importantes, como o PIX e o Open Banking.
O pilar sustentabilidade da agenda BC# foi lançado com o objetivo de promover a agenda de finanças sustentáveis no SFN, estimular o gerenciamento adequado dos riscos socioambientais e climáticos no SFN e integrar esses temas nas decisões do Bacen, como por exemplo, na sua gestão de reservas.
Ao apresentar o pilar sustentabilidade, o Bacen reconhece que o tema das mudanças climáticas representa um risco para a estabilidade de preços e resiliência do SFN. Entre os pontos anunciados pelo Bacen como parte da agenda de sustentabilidade, destacam-se:
– O apoio à implementação das recomendações do TCFD;
– Aprimoramento de riscos socioambientais na gestão integrada do Bacen;
– Entrada do banco na rede Network for Greening the Financial System (NGFS), rede de bancos centrais dedicados a incorporar preocupações com sustentabilidade;
– Estruturação de coleta de informações no SFN sobre exposição das instituições financeiras a riscos socioambientais;
– Monitoramento de riscos climáticos e testes de estresse;
– Criação de um bureau verde de crédito rural em modelo open banking. Esse ponto me parece especialmente relevante porque, por ser open banking, permitirá que diversos atores possam oferecer soluções informacionais ao mercado, atendendo à uma demanda crescente por mais dados com relação a temas “verdes”, a menores custos.
Com essa iniciativa, o Bacen manda um importante sinal ao mercado, alinhando-se aos esforços internacionais de demais supervisores e reguladores de sistemas financeiros, contribuindo para que o SFN esteja mais resiliente para os riscos socioambientais.
Managing Climate Risk in the U.S. Financial System
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) é a responsável pela regulação do mercado americano de derivativos. A comissão encomendou ao seu comitê de riscos de mercado um estudo sobre os potenciais impactos das mudanças do clima no sistema financeiro americano. O relatório da comissão conclui que as mudanças do clima representam um risco importante para o sistema financeiro americano. E mais:
“This reality poses complex risks for the U.S. financial system. Risks include disorderly price adjustments in various asset classes, with possible spillovers into different parts of the financial system, as well as potential disruption of the proper functioning of financial markets. In addition, the process of combating climate change itself—which demands a large-scale transition to a net-zero emissions economy—will pose risks to the financial system if markets and market participants prove unable to adapt to rapid changes in policy, technology, and consumer preferences. Financial system stress, in turn, may further exacerbate disruptions in economic activity, for example, by limiting the availability of credit or reducing access to certain financial products, such as hedging instruments and insurance.”(p.7)
Entre as recomendações do relatório estão:
– O estabelecimento de um preço para o carbono, consistente com as metas de redução previstas no Acordo de Paris;
– Todas as principais agências reguladoras federais deveriam incorporar riscos climáticos em seus mandatos;
– Os supervisores financeiros devem exigir que instituições financeiras bancárias e não bancárias considerem os riscos climáticos em sua gestão de risco;
– Tanto supervisores como instituições financeiras devem criar programas pilotos para testes de estresse associados aos impactos financeiros das mudanças do clima;
– Os reguladores devem exigir que as empresas listadas divulguem as emissões de gases de efeito estufa seguindo os Escopos 1 e 2.
O que esses dois movimentos nos dizem?
Esses dois eventos relacionados a supervisores e reguladores do sistema financeiro apontam uma tendência clara de incorporação da importância de temas socioambientais na supervisão financeira. Os dois eventos têm graus diferentes de importância para a efetiva supervisão financeira. O do Bacen é uma indicação clara de demandas para o setor financeiro. Já o da CFTC é um estudo, conduzido pelo comitê de riscos de mercado da CFTC e ainda não endossado institucionalmente pela CFTC, que busca informar os formuladores de políticas públicas sobre a relação entre mudança do clima e riscos financeiros. Mesmo assim, ambos indicam fortes sinais quanto a direção que o sistema financeiro deve seguir nos próximos anos no que tange a incorporação de riscos socioambientais em seu processo de gerenciamento de riscos.
Nesse vídeo aqui fiz uma breve análise dos dois documentos.
Para saber mais: