Reflexões sobre a COVID-19 e as estratégias corporativas para a sustentabilidade.

Enquanto escrevo esse texto (19/04/2020), a história da COVID-19 continua a se desenrolar, longe de um fim. O painel da Organização Mundial de Saúde (OMS) que reporta o estado atual da doença, mostra hoje que são mais de 2 milhões de casos no mundo e mais de 152.000 mortes. Infelizmente, estamos longe ainda de estabilizarmos o impacto da pandemia sobre a saúde humana e os sistemas de saúde pública.

Além desse aspecto, sabemos que essa pandemia tem e continuará tendo impactos econômicos importantes. O Fundo Monetário Internacional projeta para o ano de 2020 retração global de 3%, com os países avançados retraindo 6,1%. A projeção para a China é de crescimento de 1,2%, bastante inferior ao crescimento verificado desde o ano de 1976, quando morreu Mao Tsé-Tung (líder da Revolução Chinesa) e um período de reformas levou à China a se tornar a segunda maior economia do mundo. Para o Brasil, a projeção do FMI é de retração de 5,3% em 2020.

O cenário que temos à frente, tanto em termos de saúde humana e gestão da saúde pública, como em termos econômicos é difícil. Claro, nesse momento em que a história se desenrola perante nossos olhos, é um risco para qualquer analista fazer quaisquer previsões. Mas projeções nos ajudam a desenhar cenários e o objetivo dos cenários não é nos mostrar exatamente como será o mundo, mas nos ajudar a preparar para possíveis diferentes realidades. É colocar em prática a máxima do “prepare-se para o pior e torça para o melhor”.

Por isso, mesmo com todas as incertezas em torno do que será realmente o mundo em 2020, vale já uma reflexão sobre caminhos para os gestores corporativos de sustentabilidade.

Essa conversa é longa e o assunto complexo. Para fazer isso de maneira adequada, teríamos que considerar muitos elementos, tais como transformação digital, sistema financeiro, impactos sobre as cadeias de valor, aspectos sociais da crise, entre outros.

Mas para um início de conversa, a primeira proposição que me parece razoável é que os gestores de sustentabilidade, mais do que nunca, precisam rapidamente explicitar o valor econômico criado ou protegido pelos programas e projetos de sustentabilidade.  As empresas, como resposta à dupla crise, vão voltar “ao modo sobrevivência”. E o que significa isso? Significa cortar tudo o que não é essencial para a manutenção dos negócios; tudo o que não é core. Na minha experiência profissional já passei por alguns momentos desse tipo. Obviamente, nenhum com a gravidade da COVID-19, mas já passei por vários de volta “ao modo sobrevivência”. Quando isso acontece, são momentos muito difíceis para todos que fazem parte de uma empresa porque nenhum líder gosta de cortar orçamento, reduzir equipes, abrir mão de projetos. Mas muitas vezes é necessário para que o negócio sobreviva à crise.

São nesses momentos que processos que asseguram a existência no longo prazo, como os de sustentabilidade, correm o risco de se perder. No modo sobrevivência, o foco é quase exclusivo no curto-prazo porque os desafios de superar o curto prazo são enormes. Por isso, os gestores de sustentabilidade precisam rapidamente indicar as contribuições dos projetos de sustentabilidade para a continuidade do negócio, para o que é essencial. Em um momento de grave crise social como o que estamos passando, os projetos de sustentabilidade têm um papel fundamental a desempenhar.

Nesse sentido,  é possível também que a pandemia revele a importância dos projetos de filantropia corporativa, sejam eles conduzidos diretamente pelas empresas ou via institutos e fundações.

A pandemia nos mostrou que nossa sociedade precisa se preparar para um risco de saúde pública. Portanto, talvez as empresas percebam que há valor em se engajar com outros atores sociais (ONGs, outras empresas, associações de classe, por exemplo) para ajudar o governo a ter sistemas de saúde preparados para uma crise de saúde pública. O segundo setor pode contribuir para que o governo estabeleça a agenda de risco de pandemias como prioritária. Empresas podem investir em temas importantes para essa agenda, por meio de seus processos de Responsabilidade Social Corporativa ou filantropia, por exemplo. Fazer investimentos em organizações que atuem com biossegurança, P&D, imunização, laboratórios, criação e integração de base de dados, entre outros.

Falo brevemente sobre esses assuntos nesse vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=RmS-bKhCOj8


Agradeço ao Freepik pela imagem.

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