O “bem comum”
Em termos econômicos, as políticas públicas devem ser pensadas tendo em vista o bem-comum, conciliando os interesses dos indivíduos com os gerais da sociedade. Talvez seja justo dizer os contratos sociais modernos pedem isso. Mas o que é o “bem comum”? Trata-se de um juízo de valor. Reflete, em certa medida, preferências individuais, as informações disponíveis (que são distribuídas de maneira assimétrica), a posição na sociedade, interesses econômicos, entre outros fatores. Por onde começar? O filósofo John Rawls propôs o conceito do “véu da ignorância”. Jean Tirole explica o conceito: “Suponha que você ainda não tenha nascido e, portanto, não saiba qual será o seu lugar na sociedade, quais serão seus genes ou quem serão sua família, ou mesmo em que ambiente social, étnico, religioso ou nacional você nascerá. Agora pergunte-se: ‘Em que tipo de sociedade eu gostaria de viver, sabendo que posso ser tanto um homem quanto uma mulher, dotado de boa ou má saúde, de uma família rica ou pobre, bem ou mal educado, ateu ou religioso, uma pessoa que pode crescer em uma grande cidade ou no meio do campo, ou alguém que pode buscar realização no trabalho ou adotar um estilo de vida alternativo?’” A elaboração de políticas públicas é sempre influenciada, no mínimo, por aspectos técnicos, sociais, políticos, econômicos, tecnológicos, legais. Tomara que em algum lugar, ao longo desse processo, se possa incluir uma reflexão honesta sobre o bem comum, partindo do “véu da ignorância”.
FTX: Governança corporativa e a natureza humana
Nas discussões ESG, discutimos pouco o ‘G’. No entanto, a governança não apenas é essencial para o atingimento do ‘E’ (Ambiental) e do ‘S’ (Social), como, se falhar, pode levar a empresa à falência. Além disso, prejudica não apenas os acionistas, mas também os funcionários, fornecedores, clientes e, se a empresa estiver listada na bolsa de valores, pequenos investidores – pessoas como você e eu – que colocaram seu dinheiro duramente conquistado na promessa de futuro de um negócio. Problemas de governança sempre existiram. Quando Berle e Means publicaram em 1932 o livro que serviu de base para a discussão econômica sobre governança, eles já estavam documentando o que observavam. Eram reflexões sistematizadas e aprofundadas sobre práticas que já existiam. “Aqueles no controle das operações de uma empresa podem encher mais seus próprios bolsos se lucrarem às custas da empresa do que ao gerar lucros para ela.” Essa frase foi escrita durante a Grande Depressão de 1930. Passaram-se mais de 90 anos, mas, infelizmente, muitas das ideias ali expressas continuam sendo verdadeiras. Por quê? Porque a natureza humana não mudou. Escândalos de governança corporativa ainda nos surpreendem, resultando em perdas de bilhões e prejudicando muitas pessoas. Exemplos incluem Enron, WorldCom, Bamerindus, IRB Resseguros, Theranos e Americanas. Nesse começo de outubro, nos EUA, a FTX ocupou os holofotes devido ao que alguns consideram uma das maiores fraudes financeiras da história americana. Em um mundo em constante evolução, em que a confiança do público é um recurso escasso e precioso, a governança corporativa permanece como a pedra fundamental que sustenta a integridade das empresas e a promessa de um futuro mais justo e próspero.
Florestas e Finanças: por que analistas financeiros devem prestar atenção ao desmatamento.
(Texto escrito para Citywire) Os alertas de desmatamento do sistema DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nos avisam que, em 2023, continuamos a trajetória de desmatamento na Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica [1]. O problema do desmatamento tem questões éticas e filosóficas importantes que por si só seriam suficientes para mobilizar todos os brasileiros. Mas tem também implicações econômicas e financeiras. Investidores, gestores de ativos, analistas de investimentos, analistas de crédito, por exemplo, devem prestar muita atenção na conexão entre suas decisões e desmatamento. Implicações econômicas e financeiras do desmatamento Em primeiro lugar, desmatamento pode ter um impacto econômico significativo em setores como agricultura, pecuária, geração hidrelétrica de grande porte, celulose e papel, que estão diretamente ligados a recursos naturais. A redução da cobertura vegetal pode levar à perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que suportam a produtividade desses setores, afetando a sua viabilidade de longo prazo. Sem dúvida, esses impactos afetam diretamente esses setores e, indiretamente, os demais que fazem parte de suas cadeias de valor. Em segundo lugar, o desmatamento contribui substancialmente para as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), representando entre 10 a 20% das emissões globais[2]. No Brasil, a mudança do uso da terra é a principal fonte de nossas emissões, representando cerca de 50%, muito superior, portanto, à média global. É o que nos coloca entre os cinco maiores emissores globais de GEE[3]. Coloca o Brasil em outra posição incômoda quanto a emissões de GEE per capita: emitimos 10,2 toneladas brutas per capita, contra 6,7 da média mundial[4]. Em um mundo que está gradativamente avançando para mais restrições a comercialização de produtos e serviços financeiros relacionados a altas emissões de GEE, apoiar negócios relacionados positivamente com altas emissões é um problema no médio e no longo prazos. Em terceiro lugar, empresas envolvidas em desmatamento podem estar expostas a riscos reputacionais, legais, comerciais, operacionais e financeiros, com potencial de impactos materiais em seus fluxos de caixa. Investidores que ignoram esses riscos podem enfrentar impactos negativos em suas carteiras. Além desses aspectos, o desmatamento ilegal está diretamente relacionado a desrespeito aos direitos humanos, especialmente aos dos povos indígenas e comunidades locais que dependem das florestas (e demais vegetações) para sua subsistência e cultura. No Brasil, problemas fundiários principalmente na Amazônia, estão ainda longe de serem resolvidos e a grilagem viabiliza perda importante de direitos por parte das comunidades locais. Desmatamento pode levar à disseminação de doenças, pragas e à perda de plantas medicinais, afetando a saúde de comunidades que já se encontram, muitas vezes, em situação de grande vulnerabilidade social. Adicionalmente, onde há desmatamento ilegal há também a presença de outras atividades ilegais, como tráfico de drogas, de animais silvestres, exploração mineral ilegal e trabalho análogo ao escravo. Cuidados ao incluir preocupações com desmatamento nas decisões financeiras Mas para que a questão de desmatamento seja efetivamente considerada nas decisões financeiras não basta análise documental. Ou seja, não basta due diligence, análise de certidões ou desk research. Além de insuficiente, a análise documental como pode levar o analista à uma falsa sensação de segurança. No Brasil podem ser fraudados (e frequentemente são) vários documentos relacionados à cadeia do desmatamento [5]. A solução passa por, no mínimo, dois caminhos. O primeiro é o uso, por parte do analista financeiro, de informações de satélite – e nesse caso, quanto mais, melhor. Como os satélites têm resoluções diferentes, inclusive temporais, a análise de informações de diferentes fontes se complementa. O segundo caminho passa pelo diálogo com especialistas e organizações (como FGVces, WWF, IPAM, WRI, apenas para citar algumas) que operam no campo, conhecendo de perto a realidade do desmatamento ilegal no Brasil. O ideal seria o analista financeiro ir ao campo para conversar com as pessoas, comunidades e ouvir o que têm a dizer, mas isso é, muitas vezes, inviável. *** O desmatamento ilegal depende de uma rede criminosa bem organizada, cujos tentáculos se estendem por muitos lugares. Vencer essa rede exigirá um esforço consistente da sociedade brasileira. No entanto, há décadas vem se formando e fortalecendo no Brasil uma rede de indivíduos e organizações que trabalham incansavelmente para conter o desmatamento ilegal. Essa rede precisa ser fortalecida com o uso de tecnologia e com o fim da destinação de recursos financeiros para atividades que se beneficiam, ainda que indiretamente, do desmatamento ilegal. Enfim, como se vê, há motivos suficientes para que todo analista financeiro inclua preocupações com desmatamento em suas decisões, especialmente no caso do Brasil em que o problema da ilegalidade afeta praticamente todos os biomas brasileiros. Se não for por preocupações éticas, que seja, então, por razões econôm [1] http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/deter/deter [2] https://www.lse.ac.uk/granthaminstitute/explainers/whats-redd-and-will-it-help-tackle-climate-change/#:~:text=Land%20use%20change%2C%20principally%20deforestation,also%20contribute%20to%20these%20emissions. [3] https://seeg.eco.br/wp-content/uploads/2023/03/SEEG9_DOC_ANALITICO_2021_FINAL.pdf [4] Idem [5] Saraiva, Alexandre. Selva: madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei. 1ª edição. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.
Risco climático e o Banco Central do Brasil
(Artigo escrito e publicado pela Febrabantech): O desenvolvimento de um sistema financeiro robusto e seguro é essencial para a prosperidade de uma nação. Entre outros fatores, um sistema financeiro sólido fornece os recursos necessários para o crescimento econômico de longo prazo e contribui para reduzir a volatilidade da economia, proporcionando estabilidade e segurança para os investidores. No Brasil, por exemplo, o Banco Central (BCB) é o banco do governo, depositório das reservas internacionais e o banco dos bancos. Tem por missão “garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e fomentar o bem-estar econômico da sociedade.”[1] Crises bancárias, como a dos Estados Unidos nesse começo de 2023 ou o colapso do sistema bancário no Líbano que explodiu em 2019 e não dá sinais de ter terminado, geram grandes externalidades sociais. Nesse sentido, é muito bem-vinda a publicação semestral pelo BCB do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), que apresenta as perspectivas para estabilidade financeira no Brasil, analisando os principais riscos relacionados a liquidez, crédito, rentabilidade e solvência e a capacidade do SFN de responder a esses riscos. Nessas análises, os testes de estresse de capital e de liquidez e seus reflexos sobre a solvência das instituições são essenciais. Testes de estresse visam analisar a resiliência de uma instituição e do agregado do sistema financeiro a possíveis perdas resultantes da ocorrência de eventos extremos. Essa avaliação é feita com o uso de simulações em que são testados possíveis impactos de mudanças em variáveis macroeconômicas sobre o capital das instituições, visando avaliar a solvência do sistema como um todo [2]. É uma ferramenta essencial para gestão de risco. Publicidade Na edição de Novembro de 2022, a análise de estabilidade financeira do SFN trouxe um elemento novo: um mapeamento da exposição ao risco climático (se baixo, médio ou alto) da carteira de crédito bancário do Brasil. Para que essa análise fosse feita, foram analisados diversos setores da economia, agregados em cinco grupos: processos industriais, agropecuária, energia, tratamento de resíduos e mudança do uso a terra. Para cada um dos setores, foram analisadas suas emissões de gases de efeito estufa, considerando emissões de GEE escopos 1 e 2 por tonelada de produto e absolutas, assim como uma variável ligada às suas exportações, visando captar potenciais riscos climáticos relacionados ao comércio exterior. Depois, esses dados foram comparados com a carteira de crédito (PJ e PF) do SFN para analisar o percentual de exposição do SFN aos setores com níveis médios e altos de risco climático. O resultado desse mapeamento apontou que 8% da carteira de do SFN tem um risco médio e alto de ser afetada pelos riscos de transição, tendo os segmentos de gado de corte, transporte rodoviário de carga, produção de soja e a indústria de ferro-gusa apresentado as maiores exposições climáticas. As instituições que financiam frotas de veículos pesados ou são especializadas em crédito rural são as mais expostas[3]. Outra análise realizada pelo BCB buscou compreender o percentual da carteira de crédito do SFN em municípios com risco de seca médio ou alto e cujos tomadores estejam em atividades produtivas intensivas no consumo de água. Para essa análise foram utilizados os cenários climáticos para 2030 e 2050 disponibilizados pela plataforma AdaptaBrasil do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). As atividades mais expostas ao risco de seca extrema são associadas ao crédito rural e geração de energia. Pelas análises do BCB, 16% do estoque de crédito (PJ e PF) do Brasil está localizado em áreas e tomadores com riscos de seca extrema médio e alto, ou seja, mais propensos a serem afetados pelas mudanças do clima. A análise de sensibilidade realizada mostra que essa exposição pode chegar a 19% considerando os cenários de seca projetados e a região Sudeste é a região mais exposta[4]. Publicidade Essas análises, apesar de suas limitações metodológicas, são necessárias para o gerenciamento do risco climático. Serão cada vez mais úteis à medida que forem realizadas periodicamente, favorecendo uma análise evolutiva do comportamento do risco climático vis-à-vis a carteira de crédito. O BCB não está sozinho nesse esforço, mas é parte de uma rede, chamada de Network for Greening the Financial System (NGFS) composta, em dezembro de 2022, de 121 autoridades financeiras do mundo todo – entre elas, oitos bancos centrais, incluindo o Federal Reserve dos Estados Unidos, European Central Bank, Bank of England, Deutsche Bundesbank -, que se juntaram para analisar como cenários climáticos podem potencialmente impactar o sistema financeiro global [5]. Riscos climáticos estão sujeitos a uma incerteza significativa com relação à sua temporalidade, frequência e gravidade. Nesse sentido, a avaliação prospectiva de risco baseada em cenários é fundamental para a análise de potenciais implicações das mudanças climáticas nas economias e nos sistemas financeiros. Como todo o processo de uso de cenários, o objetivo não é antecipar o futuro, mas preparar-se e adaptar-se a ele, na medida do possível. Colabora para o desenho de políticas públicas e processos de fiscalização que incluam potenciais impactos da questão climática, contribuindo para aumentar a eficiência, garantir a competição justa, assegurar estabilidade financeira, a integridade do mercado e a proteção dos clientes. De acordo com relatório conjunto do Financial Stability Board (FSB) e a NGFS, além do BCB, mais 52 instituições estão realizando análises de risco climático e avaliando os impactos sobre seus sistemas financeiros, de locais como Holanda, Noruega, África do Sul, Espanha e Reino Unido, apenas para citar alguns [6]. A análise de risco climático sobre sistemas financeiros está ainda em estágio inicial e carece de dados e metodologias rigorosos, mas é um campo que certamente se desenvolverá nas próximas décadas. Sem dúvida, serve de exemplo para organizações de diversos setores sobre a importância de se considerar cenários climáticos no processo de gerenciamento de risco corporativo. [1] https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/institucional [2] https://www.bcb.gov.br/publicacoes/ref/202210 [3] Idem [4] Idem [5] https://www.ngfs.net/en/liste-chronologique/ngfs-publications?year=2022 [6] https://www.ngfs.net/sites/default/files/medias/documents/climate_scenario_analysis_by_jurisdictions_initial_findings_and_lessons.pdf
Reunião do Clube do Livro de Maio
Olá! Nosso próximo encontro será no dia 05/05, das 12h15 às 13h15. Não precisa se inscrever. Basta ler o texto indicado e entrar no link do Zoom no dia e hora combinados. Não tem custo, nem número máximo de participantes. Algumas informações importantes: 1. Vamos ler e discutir o seguinte livro: DIAMANDIS, Peter H.; KOTLER, Steven. The future is faster than you think: How converging technologies are transforming business, industries, and our lives. Simon & Schuster, 2020. O livro pode ser comprado no formato kindle na Amazon. Para esse encontro, leremos os capítulos 3 e 4. 2. O encontro acontecerá no Zoom, nesse link aqui (um oferecimento da FGV!): ID da reunião: 613 923 4502 3. Como vai funcionar? Durante os primeiros 20 minutos farei uma breve introdução sobre os textos. Na sequência abrimos para a discussão. Atenção: esse encontro não ficará salvo! Espero vocês! Annelise
Boletim ESG
Nesse vídeo, eu discuto o framework da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) e a publicação do UK Green Finance Strategy. No link abaixo, você encontra as referências mencionadas no vídeo. Clique para acessar o boletim-esg-tnfd-e-uk-green-finance-strategy.pdf
Boletim ESG
Relatório IPCC e Reclassificação de Índices ESG Março, 2023 No link abaixo, você encontra um pdf com um resumo das notícias comentadas no vídeo do meu canal no YouTube. Clique para acessar o boletim-esg-ipcc-e-ratings-esg-1.pdf
Responsible Finance & Accounting
Nesse livro, recém publicado pela Routledge, escrevi o capítulo sobre ESG e Bitcoin, além do prefácio em parceria com o Prof Adrian Zicari. Disponível aqui: https://www.routledge.com/Responsible-Finance-and-Accounting-Performance-and-Profit-for-Better-Business/Zicari-Gamble/p/book/9781032329185
“Querida, encolhi o mercado ESG!”
No artigo para a Citywire Brasil desse mês, eu discuto algumas mensagens trazidas pelo relatório do US SIF sobre o estado do mercado de investimento responsável nos Estados Unidos.
Finanças e Biodiversidade: tornando visível o essencial.
[Artigo escrito para o Valor em fevereiro de 2023 ] Nesse artigo, eu discuto alguns dos caminhos que estão sendo tomados para tornarem a biodiversidade e natureza menos opacas na decisões econômicas e financeiras. https://valor.globo.com/financas/esg/artigo/financas-e-biodiversidade-tornando-visivel-o-essencial.ghtml