(Texto escrito para Citywire)
Os alertas de desmatamento do sistema DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nos avisam que, em 2023, continuamos a trajetória de desmatamento na Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica [1]. O problema do desmatamento tem questões éticas e filosóficas importantes que por si só seriam suficientes para mobilizar todos os brasileiros. Mas tem também implicações econômicas e financeiras. Investidores, gestores de ativos, analistas de investimentos, analistas de crédito, por exemplo, devem prestar muita atenção na conexão entre suas decisões e desmatamento.
Implicações econômicas e financeiras do desmatamento
Em primeiro lugar, desmatamento pode ter um impacto econômico significativo em setores como agricultura, pecuária, geração hidrelétrica de grande porte, celulose e papel, que estão diretamente ligados a recursos naturais. A redução da cobertura vegetal pode levar à perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que suportam a produtividade desses setores, afetando a sua viabilidade de longo prazo. Sem dúvida, esses impactos afetam diretamente esses setores e, indiretamente, os demais que fazem parte de suas cadeias de valor.
Em segundo lugar, o desmatamento contribui substancialmente para as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), representando entre 10 a 20% das emissões globais[2]. No Brasil, a mudança do uso da terra é a principal fonte de nossas emissões, representando cerca de 50%, muito superior, portanto, à média global. É o que nos coloca entre os cinco maiores emissores globais de GEE[3]. Coloca o Brasil em outra posição incômoda quanto a emissões de GEE per capita: emitimos 10,2 toneladas brutas per capita, contra 6,7 da média mundial[4]. Em um mundo que está gradativamente avançando para mais restrições a comercialização de produtos e serviços financeiros relacionados a altas emissões de GEE, apoiar negócios relacionados positivamente com altas emissões é um problema no médio e no longo prazos.
Em terceiro lugar, empresas envolvidas em desmatamento podem estar expostas a riscos reputacionais, legais, comerciais, operacionais e financeiros, com potencial de impactos materiais em seus fluxos de caixa. Investidores que ignoram esses riscos podem enfrentar impactos negativos em suas carteiras.
Além desses aspectos, o desmatamento ilegal está diretamente relacionado a desrespeito aos direitos humanos, especialmente aos dos povos indígenas e comunidades locais que dependem das florestas (e demais vegetações) para sua subsistência e cultura. No Brasil, problemas fundiários principalmente na Amazônia, estão ainda longe de serem resolvidos e a grilagem viabiliza perda importante de direitos por parte das comunidades locais.
Desmatamento pode levar à disseminação de doenças, pragas e à perda de plantas medicinais, afetando a saúde de comunidades que já se encontram, muitas vezes, em situação de grande vulnerabilidade social.
Adicionalmente, onde há desmatamento ilegal há também a presença de outras atividades ilegais, como tráfico de drogas, de animais silvestres, exploração mineral ilegal e trabalho análogo ao escravo.
Cuidados ao incluir preocupações com desmatamento nas decisões financeiras
Mas para que a questão de desmatamento seja efetivamente considerada nas decisões financeiras não basta análise documental. Ou seja, não basta due diligence, análise de certidões ou desk research. Além de insuficiente, a análise documental como pode levar o analista à uma falsa sensação de segurança. No Brasil podem ser fraudados (e frequentemente são) vários documentos relacionados à cadeia do desmatamento [5].
A solução passa por, no mínimo, dois caminhos.
O primeiro é o uso, por parte do analista financeiro, de informações de satélite – e nesse caso, quanto mais, melhor. Como os satélites têm resoluções diferentes, inclusive temporais, a análise de informações de diferentes fontes se complementa.
O segundo caminho passa pelo diálogo com especialistas e organizações (como FGVces, WWF, IPAM, WRI, apenas para citar algumas) que operam no campo, conhecendo de perto a realidade do desmatamento ilegal no Brasil. O ideal seria o analista financeiro ir ao campo para conversar com as pessoas, comunidades e ouvir o que têm a dizer, mas isso é, muitas vezes, inviável.
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O desmatamento ilegal depende de uma rede criminosa bem organizada, cujos tentáculos se estendem por muitos lugares. Vencer essa rede exigirá um esforço consistente da sociedade brasileira. No entanto, há décadas vem se formando e fortalecendo no Brasil uma rede de indivíduos e organizações que trabalham incansavelmente para conter o desmatamento ilegal. Essa rede precisa ser fortalecida com o uso de tecnologia e com o fim da destinação de recursos financeiros para atividades que se beneficiam, ainda que indiretamente, do desmatamento ilegal. Enfim, como se vê, há motivos suficientes para que todo analista financeiro inclua preocupações com desmatamento em suas decisões, especialmente no caso do Brasil em que o problema da ilegalidade afeta praticamente todos os biomas brasileiros. Se não for por preocupações éticas, que seja, então, por razões econôm
[1] http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/deter/deter
[2] https://www.lse.ac.uk/granthaminstitute/explainers/whats-redd-and-will-it-help-tackle-climate-change/#:~:text=Land%20use%20change%2C%20principally%20deforestation,also%20contribute%20to%20these%20emissions.
[3] https://seeg.eco.br/wp-content/uploads/2023/03/SEEG9_DOC_ANALITICO_2021_FINAL.pdf
[4] Idem
[5] Saraiva, Alexandre. Selva: madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei. 1ª edição. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.