Risco climático e o Banco Central do Brasil

(Artigo escrito e publicado pela Febrabantech):

https://febrabantech.febraban.org.br/especialista/annelise-vendramini/risco-climatico-e-o-banco-central-do-brasil

O desenvolvimento de um sistema financeiro robusto e seguro é essencial para a prosperidade de uma nação. Entre outros fatores, um sistema financeiro sólido fornece os recursos necessários para o crescimento econômico de longo prazo e contribui para reduzir a volatilidade da economia, proporcionando estabilidade e segurança para os investidores. No Brasil, por exemplo, o Banco Central (BCB) é o banco do governo, depositório das reservas internacionais e o banco dos bancos. Tem por missão “garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e fomentar o bem-estar econômico da sociedade.”[1]    Crises bancárias, como a dos Estados Unidos nesse começo de 2023 ou o colapso do sistema bancário no Líbano que explodiu em 2019 e não dá sinais de ter terminado, geram grandes externalidades sociais.

Nesse sentido, é muito bem-vinda a publicação semestral pelo BCB do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), que apresenta as perspectivas para estabilidade financeira no Brasil, analisando os principais riscos relacionados a liquidez, crédito, rentabilidade e solvência e a capacidade do SFN de responder a esses riscos.  Nessas análises, os testes de estresse de capital e de liquidez e seus reflexos sobre a solvência das instituições são essenciais. Testes de estresse visam analisar a resiliência de uma instituição e do agregado do sistema financeiro a possíveis perdas resultantes da ocorrência de eventos extremos. Essa avaliação é feita com o uso de simulações em que são testados possíveis impactos de mudanças em variáveis macroeconômicas sobre o capital das instituições, visando avaliar a solvência do sistema como um todo [2]. É uma ferramenta essencial para gestão de risco.

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Na edição de Novembro de 2022, a análise de estabilidade financeira do SFN trouxe um elemento novo: um mapeamento da exposição ao risco climático (se baixo, médio ou alto) da carteira de crédito bancário do Brasil. Para que essa análise fosse feita, foram analisados diversos setores da economia, agregados em cinco grupos: processos industriais, agropecuária, energia, tratamento de resíduos e mudança do uso a terra. Para cada um dos setores, foram analisadas suas emissões de gases de efeito estufa, considerando emissões de GEE escopos 1 e 2 por tonelada de produto e absolutas, assim como uma variável ligada às suas exportações, visando captar potenciais riscos climáticos relacionados ao comércio exterior. Depois, esses dados foram comparados com a carteira de crédito (PJ e PF) do SFN para analisar o percentual de exposição do SFN aos setores com níveis médios e altos de risco climático.

O resultado desse mapeamento apontou que 8% da carteira de do SFN tem um risco médio e alto de ser afetada pelos riscos de transição, tendo os segmentos de gado de corte, transporte rodoviário de carga, produção de soja e a indústria de ferro-gusa apresentado as maiores exposições climáticas. As instituições que financiam frotas de veículos pesados ou são especializadas em crédito rural são as mais expostas[3].

Outra análise realizada pelo BCB buscou compreender o percentual da carteira de crédito do SFN em municípios com risco de seca médio ou alto e cujos tomadores estejam em atividades produtivas intensivas no consumo de água. Para essa análise foram utilizados os cenários climáticos para 2030 e 2050 disponibilizados pela plataforma AdaptaBrasil do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). As atividades mais expostas ao risco de seca extrema são associadas ao crédito rural e geração de energia. Pelas análises do BCB, 16% do estoque de crédito (PJ e PF) do Brasil está localizado em áreas e tomadores com riscos de seca extrema médio e alto, ou seja, mais propensos a serem afetados pelas mudanças do clima. A análise de sensibilidade realizada mostra que essa exposição pode chegar a 19% considerando os cenários de seca projetados e a região Sudeste é a região mais exposta[4].

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Essas análises, apesar de suas limitações metodológicas, são necessárias para o gerenciamento do risco climático. Serão cada vez mais úteis à medida que forem realizadas periodicamente, favorecendo uma análise evolutiva do comportamento do risco climático vis-à-vis a carteira de crédito.

O BCB não está sozinho nesse esforço, mas é parte de uma rede, chamada de ­­­Network for Greening the Financial System (NGFS) composta, em dezembro de 2022, de 121 autoridades financeiras do mundo todo – entre elas, oitos bancos centrais, incluindo o Federal Reserve dos Estados Unidos, European Central Bank, Bank of England, Deutsche Bundesbank -, que se juntaram para analisar como cenários climáticos podem potencialmente impactar o sistema financeiro global [5].

Riscos climáticos estão sujeitos a uma incerteza significativa com relação à sua temporalidade, frequência e gravidade. Nesse sentido, a avaliação prospectiva de risco baseada em cenários é fundamental para a análise de potenciais implicações das mudanças climáticas nas economias e nos sistemas financeiros. Como todo o processo de uso de cenários, o objetivo não é antecipar o futuro, mas preparar-se e adaptar-se a ele, na medida do possível. Colabora para o desenho de políticas públicas e processos de fiscalização que incluam potenciais impactos da questão climática, contribuindo para aumentar a eficiência, garantir a competição justa, assegurar estabilidade financeira, a integridade do mercado e a proteção dos clientes. 

De acordo com relatório conjunto do Financial Stability Board (FSB) e a NGFS, além do BCB, mais 52 instituições estão realizando análises de risco climático e avaliando os impactos sobre seus sistemas financeiros, de locais como Holanda, Noruega, África do Sul, Espanha e Reino Unido, apenas para citar alguns [6].

A análise de risco climático sobre sistemas financeiros está ainda em estágio inicial e carece de dados e metodologias rigorosos, mas é um campo que certamente se desenvolverá nas próximas décadas.  Sem dúvida, serve de exemplo para organizações de diversos setores sobre a importância de se considerar cenários climáticos no processo de gerenciamento de risco corporativo.


[1]   https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/institucional

[2]   https://www.bcb.gov.br/publicacoes/ref/202210

[3]   Idem

[4]   Idem

[5]   https://www.ngfs.net/en/liste-chronologique/ngfs-publications?year=2022

[6]   https://www.ngfs.net/sites/default/files/medias/documents/climate_scenario_analysis_by_jurisdictions_initial_findings_and_lessons.pdf