Clube do Livro

O Clube do Livro é um encontro mensal em que discutimos um trecho do livro selecionado. Não fazemos um “resumo” do que foi lido, mas discutimos sobre o trecho lido. Por isso, é muito importante a leitura prévia. Todos os livros serão sobre sustentabilidade, ESG etc? Não. Mas todas as discussões serão sobre as conexões entre o conteúdo lido e esses temas. Então, o Clube do Livro é para quem tem interesse em sustentabilidade e ESG e quer ler e discutir sobre o assunto, com base na leitura proposta. Pode ser que você trabalhe com esse assunto, esteja estudando ou seja só um curioso. Não há pré-requisitos além de ler o livro. A reunião acontece por Zoom, cujo link é disponibilizado nesse site; a data e hora são divulgadas no meu canal do Instagram e por aqui. Os encontros não são gravados, não têm custo e não é necessário se inscrever. Basta aparecer no link tendo lido o livro, claro. O primeiro livro que será discutido em 2023 é: DIAMANDIS, Peter H.; KOTLER, Steven. The future is faster than you think: How converging technologies are transforming business, industries, and our lives. Simon & Schuster, 2020. Aqui o link na Amazon (apenas para referência, não tenho parceria com a Amazon, não ganho nada com isso): Espero você no Clube!

Uma discussão sobre “propósito” na Estratégia Corporativa

A discussão sobre “Propósito” – bastante tradicional no escopo das atividades de planejamento estratégico – vem sendo atualizada para incluir uma lente de atendimento às necessidades da sociedade. (Para o vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=AFQOa9Lt4t8) Em novembro de 2022, atingimos a marca de 8 bilhões de pessoas habitando esse planeta. Um marco impressionante, considerando que na virada do século XIX, no começo da Revolução Industrial, éramos pouco menos de um bilhão de pessoas. Nesses mais de 200 anos, avanços de diversas naturezas aumentaram significativamente a nossa expectativa de vida, que saiu de menos de 30 anos em 1800 para mais de 70 anos em 2021. Outro aspecto relevante desse período é o crescimento e desenvolvimento das cidades e da taxa de urbanização da  população: fenômeno típico dos últimos dois séculos, hoje cerca de metade das pessoas do mundo vive em um ambiente urbano com alta densidade demográfica, quando comparadas às históricas baixas taxas de densidade do ambiente rural. Desde 2020 a maior parte da população mundial vive em cidades, e as projeções apontam que o crescimento populacional nas próximas décadas se dará, prioritariamente, nas cidades. A urbanização altera de maneira profunda as maneiras como vivemos, trabalhamos, viajamos, as nossas necessidades de infraestrutura e logística, nossas redes, a nossa noção do que é bem-estar. Tem profundo impacto sobre a cultura e a formação do pensamento: as cidades não são apenas centros econômicos, polos de infraestrutura, mas importantes locais para inovações de toda ordem, como culturais, tecnológicas, científicas, econômicas, entre outras. A concentração de pessoas (e mentes) diferentes que acontece naturalmente nas cidades, favorece o surgimento e a troca de novas ideias de forma muito acelerada. O aumento da expectativa de vida, o crescimento populacional, a explosão das cidades e a concentração populacional em áreas urbanas são importantes fatores demográficos atuais. Somos muitos, vivemos por mais tempo, principalmente em cidades. Para o gestor corporativo e o investidor, compreender – pelo menos um pouco – as mudanças e tendências demográficas é fundamental para pensar caminhos para os negócios e seus investimentos. Porém, para que essa análise tenha alguma aplicação prática para os negócios, é essencial segmentar tais tendências ao menos em grupos geracionais. Consumidores, clientes, mercado etc., são termos amplos, genéricos. Um bom começo para a análise estratégica é entender a quais grupos geracionais os stakeholders que têm relacionamento (atual ou futuro) com a empresa fazem parte. Longe de ser uma panaceia, analisar gerações é apenas uma das ferramentas que o gestor tem ao seu dispor. A definição de geração não é uma ciência exata, mas uma ferramenta analítica para se capturar visões de mundo, agrupando pessoas que têm, em tese, trajetórias formativas com base em experiências tecnológicas, sociais e econômicas similares. Pessoas que nasceram e cresceram no mesmo período tendem a ter vivido os mesmos eventos significativos, como uma pandemia ou uma guerra, por exemplo, compartilhado as mesmas experiências socioculturais e são propensos a possuir conjuntos semelhantes de valores, atitudes e comportamentos. Por outro lado, o estágio em que as pessoas estão de seu ciclo de vida e de seu processo de envelhecimento também contribuem para a sua visão de mundo. Duas gerações diferentes podem ter vivido a mesma experiência (como a pandemia), mas terem valores, atitudes e comportamentos distintos sobre esse mesmo evento. Atualmente, com mais de 8 bilhões de pessoas no planeta, vivemos algo fantástico: temos cinco diferentes gerações vivendo juntas. A Geração Silenciosa (1928-1945), os Baby Boomers (1946-1964), a Geração X (1965-1980), os Millenials (1981-1996), Geração Z (nascidos a partir de 1996)[1]. Essas gerações têm visões distintas sobre o papel das empresas, do governo e do terceiro setor na sociedade. Cada uma delas está também em diferentes estágios de vida, o que influencia o modo como tomam suas decisões de onde trabalhar, o que consumir e  no que investir. As gerações mais novas, como a Millenial e a Z, aspiram gerar mudanças positivas para a sociedade e melhorar a qualidade de vida em geral; querem usar a tecnologia para levar avanços a todos os aspectos da experiência humana[2].  Por exemplo, pesquisa feita nos Estados Unidos pelo Pew Research Center aponta que o engajamento dessas gerações com o tema das mudanças do clima é substancialmente maior que das gerações anteriores. As gerações Z e Millenial estão falando mais sobre a necessidade de ação contra a mudança climática, vendo mais conteúdo online sobre mudanças climáticas e envolvendo-se mais com atividades de voluntariado e protestos que tratam do assunto [3]. Essa dinâmica multigeracional atual traz reflexos também sobre as gerações mais velhas, em um intenso processo de troca de ideias entre diferentes gerações. Poeticamente, poderíamos dizer que há um processo de “polinização”. A potência atual da discussão ESG é um exemplo de temas caros às gerações mais novas sendo considerados por outras. A edição de 2022 da pesquisa “Barômetro da Confiança” da Edelman Trust[4]  aponta que 61% dos respondentes consideram empresas (“business”) como as únicas instituições em que confiam; 59% disseram que as ONGs são instituições neutras do ponto de vista da confiança, 52% governo e 50% mídia são também instituições neutras. Quando perguntados sobre quais instituições são vistas como forças unificadoras na sociedade, 50% apontaram as ONGs, 45% as empresas, 36% o governo e 35% a mídia.  Um resultado que chama a atenção também é a importância atribuída à responsabilidade dos negócios com a sociedade. 58% dos entrevistados disseram que compram ou defendem marcas baseadas nas suas crenças e valores; 60% disseram que escolhem lugares para trabalhar com base em valores e crenças; 64% que investem com base nesses valores e crenças. Além disso, 81% dos entrevistados esperam transparência dos CEOs quando discutirem política pública ou com relação ao envolvimento de questões importantes para a sociedade[5]. Esse contexto tem fortalecido um movimento “primo” do ESG, mas diferente: a inclusão de reflexões sobre o propósito da organização na estratégia corporativa. Há cada vez mais pressão de consumidores, funcionários e investidores, principalmente os mais jovens, para que as empresas considerem no centro da estratégia corporativa o atendimento de necessidades da sociedade, sendo uma força positiva, ao mesmo tempo em que

Encontro 6 do Grupo de Estudos

Olá! Nosso próximo encontro será na sexta-feira, dia 24/02/2023 das 12h às 13h. Não precisa se inscrever. Basta ler o texto indicado e entrar no link do Zoom no dia e hora combinados. Não tem custo, nem número máximo de participantes. Algumas informações importantes: 1. Vamos continuar a leitura e discussão do livro do Prof George Serafeim: Serafeim, G. (2022). Purpose + profit. HarperCollins Leadership. O livro pode ser comprado no formato kindle na Amazon. Para esse encontro, leremos os capítulos 7, 8 e conclusão. 2. O encontro acontecerá no Zoom, nesse link aqui (um oferecimento da FGV!): Annelise Vendramini está convidando você para uma reunião Zoom agendada. Tópico: Grupo de EstudosHora: 24 fev. 2023 12:00 da tarde São Paulo Entrar na reunião Zoomhttps://fgv-br.zoom.us/j/92098523397?pwd=ZGVrcTh4L2x4NldnTU0xa1p5eGh2UT09 ID da reunião: 920 9852 3397Senha de acesso: 198524 3. Como vai funcionar? Durante os primeiros 20 minutos haverá uma breve introdução sobre os textos. Na sequência abrimos para a discussão. Atenção: esse encontro não ficará salvo! Espero vocês! Annelise

Incentivos verdes nos EUA e a concorrência na atração de investimentos ESG

[Originalmente publicado no Portal Noomis da FEBRABAN] No dia 16 de agosto de 2022 foi publicada nos Estados Unidos, a lei Inflation Reduction Act (IRA), com os objetivos de reduzir o déficit fiscal nos EUA (com efeito sobre a inflação, daí o nome), investir na produção e fabricação doméstica de energia e reduzir as emissões de gases de efeito estufa em cerca de 40% até 2030 [1]. São 725 páginas [2] que tratam de mudanças nos tributos corporativos, reformas envolvendo o Medicare – programa de assistência médica federal -,  segurança energética, energia limpa, entre outros aspectos.  Prevê recursos de US$ 300 bilhões na redução do déficit fiscal e de US$ 369 bilhões nos programas associados à segurança energética e mudança do clima[3] até 2031. É considerada uma das mais importantes políticas climáticas na história dos Estados Unidos [4]. Está prevista no IRA incentivos tributários para aquisição de veículos elétricos novos e usados, eletrodomésticos que contribuam para a eficiência energética das casas, instalação de painéis solares, incentivos para instalação de parques eólicos, conservação florestal, entre vários outros elementos associados à agenda ambiental e climática. A expectativa é que essa política leve à redução das emissões de gases de efeito estufa em cerca de 1 bilhão de toneladas em 2030, com impacto climático esperado maior do que qualquer outra legislação já promulgada nos EUA[5]. Os efeitos práticos da implantação dessa lei começam a valer a partir de janeiro de 2023. A lei prevê também que para que vários de seus benefícios fiscais sejam aproveitados, é necessário que determinadas matérias primas e equipamentos sejam produzidos nos Estados Unidos, Canadá ou México. Um exemplo é a exigência que os veículos elétricos sejam montados localmente para se qualificar para os subsídios e que as baterias sejam feitas de componentes extraídos ou processados ​​nos EUA ou em seus parceiros de livre comércio. No “pacote” IRA há recursos de cerca de US$ 12 bilhões para empréstimos em atividades e projetos para infraestrutura de energia renovável ou relativa à eficiência energética[6].   O objetivo é diminuir a dependência das cadeias de valor na China e fomentar os impactos econômicos domésticos do crescimento dos setores verdes, como o crescimento dos chamados “empregos verdes” [7]. Um dos principais aspectos criticados nessa lei pela comunidade internacional (Emmanuel Macron da França e Ursula von der Leyen da União Europeia têm sido particularmente vocais) é o componente de protecionismo e potenciais conflitos entre essa legislação e o comércio internacional. A Coreia do Sul também se manifestou sobre as implicações dessa legislação no comércio internacional. Uma preocupação da comunidade europeia é a migração de indústrias do bloco para os EUA para aproveitar os incentivos fiscais, fugindo também dos custos crescentes de produção na Europa em função, entre outros aspectos, do aumento do custo de energia por causa da guerra Rússia-Ucrânia. Mesmo relativamente nova e sob críticas internacionais, essa lei já está movimentando o direcionamento de investimentos para os Estados Unidos. Sem dúvida, o IRA vai impactar substancialmente os investimentos em renováveis e de baixo carbono no país. BMW, Toyota, Mercedes, Stellantis (grupo que tem na sua carteira marcas como Fiat, Chrysler, Citroen, entre outras), por exemplo, já anunciaram investimentos em fábricas nos Estados Unidos [8]. Nos últimos anos a agenda de investimentos em temas ESG tem crescido de maneira impressionante. Por exemplo, os valores de ativos sob gestão (AUM) na indústria de investimentos passaram de US$ 23 trilhões em 2016 para US$ 35 trilhões em 2020, de acordo com o Global Sustainable Investment Alliance [9].  Os dados de emissão de títulos rotulados, mostram que a dívida com apelo ambiental, social ou de sustentabilidade vem crescendo, ano a ano desde 2016: emissões totais de cerca de US$ 200 bilhões em 2017 para mais de US$ 1 trilhão em 2021 [10].   É sabido que há uma sinalização do mercado investidor em alocar recursos para temas socioambientais. Sabemos que o Brasil é uma grande potência para esses temas; temos muito a oferecer a investidores interessados em temas ESG porque temos necessidades de investimentos em assuntos caros ao investidor ESG tais como conservação e restauração florestal, energia renovável, saneamento, entre tantos outros. Porém, como eu e meus colegas explicamos em outro artigo[11], há barreiras importantes a serem superadas no Brasil para o desenvolvimento de um ambiente de investimentos propício à agenda ESG. Algumas dessas barreiras são específicas a temas ESG, como eventual percepção por parte do investidor de riscos maiores ligados a novas tecnologias ambientais, falta de incentivos à agenda socioambiental, baixa atratividade financeira no Brasil (em termos de retorno ajustado ao risco) de projetos ESG, entre outros elementos. E há barreiras estruturais, que afetam o ambiente de investimentos como um todo, inclusive o ESG. Por exemplo, instabilidade macroeconômica, insegurança jurídica, ambiente político instável, uma cultura de investimentos ainda conservadora (preferência por imóveis, por exemplo por parte do investidor pessoa física), entre outros [12]. Para nós, a notícia dos incentivos verdes nos EUA pode representar uma concorrência importante desfavorável para a atração de investimentos estrangeiros para a agenda ESG no Brasil. Se, por um lado, no Brasil temos muitas oportunidades de investimentos, por outro, o risco percebido é relativamente alto em função do ambiente de investimentos de longo prazo no país. O Brasil teve seu risco soberano de crédito rebaixado em 2015 [13]; na Fitch e na S&P, por exemplo, somos avaliados como BB-, grau especulativo, indicando um elevado risco de default [14].  Há empresas que têm um rating mais bem avaliado que o soberano, claro, mas o rating soberano dá a dimensão da avaliação do mercado sobre diversas questões importantes para o ambiente de investimentos em geral, como características estruturais da economia que a tornam mais ou menos vulnerável a choques, desempenho macroeconômico, ambiente político, perspectivas de crescimento, finanças públicas e finanças externas, como conta corrente, fluxos de capital, e o nível e estrutura da dívida externa (pública e privada) [15]. Se queremos realmente atrair os trilhões de dólares que circulam pelo mundo interessados em investimentos atrelados à agenda ESG, já passou da hora de, como país, nos prepararmos e colocarmos em prática estratégias efetivas para atração e consolidação desses investimentos. A maior economia do mundo,

O que é razoável esperar de ratings ESG?

Na estreia da minha coluna para Citywire Brasil, escrevi um texto discutindo o que é razoável esperar de um rating ESG. #sustainableinvesting #sustainablefinance #esg #esgstrategy

The sustainable finance landscape in Brazil

Nesse livro, discutimos como dar escala investimentos sustentáveis em economias emergentes. Tive o prazer de assinar o capítulo 14, que trata especificamente de Brasil.  O capítulo é um passeio pelo panorama de finanças sustentáveis no Brasil, com o objetivo de oferecer ao leitor (principalmente estrangeiro) uma visão geral do assunto no país. Para acessar o livro, basta clicar aqui: https://cepr.org/system/files/publication-files/175477-scaling_up_sustainable_finance_and_investment_in_the_global_south.pdf

Contabilidade ambiental e relato de aspectos extra financeiros (vídeo)

Hoje fizemos na GV uma discussão muito interessante sobre os desafios da contabilidade e dos demonstrativos financeiros em registrar aspectos extra financeiros, em particular, ambientais, sociais e de governança. A discussão aconteceu no âmbito do ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial.  Participaram do painel inicial os professores: Antonieta, Aron, Nelson Carvalho e eu. Foi boa a conversa! Vale conferir!

A exposição ao risco associado às mudanças climáticas pelo sistema financeiro global: recomendações do Financial Stability Board.

O Financial Stability Board (FSB) é um organismo internacional que monitora e faz recomendações para o sistema financeiro global.  O FSB congrega autoridades do sistema financeiro global visando o avanço de políticas públicas que assegurem a estabilidade e resiliência do sistema financeiro global. Um dos principais papeis do FSB é identificar riscos sistêmicos que afetam o sistema financeiro global, recomendar políticas públicas que mitiguem tais riscos e supervisionar a implementação dessas políticas públicas. Os membros do FSB são os Bancos Centrais, Ministérios da Fazenda e demais membros do sistema financeiro (do Brasil, por exemplo, a CVM faz parte também) da Argentina, África do Sul, Austrália, Brasil, Canada, China, Espanha, EUA, França, Alemanha, Hong Kong, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coréia do Sul, México, Holanda, Rússia, Arábia Saudita, Singapura, Suíça, Turquia, UK, União Europeia. Também fazem parte o Bank for International Settlements (BIS), FMI, OECD, Banco Mundial, além de outros organismos responsáveis pela supervisão do sistema financeiro global, como o Basel Committee on Banking Supervision. O presidente do FSB é Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra. Em dezembro de 2015, a pedido do G20, o presidente do FSB lançou uma força tarefa (FT) liderada por Michael Bloomberg, com 32 membros do sistema financeiro global (do Brasil participou a Denise Pavarina, do Bradesco) para avançar na transparência de informações relacionadas à gestão do risco climático por parte de empresas de capital aberto. A ideia é que em função da materialidade dos impactos associados às mudanças climáticas, credores, investidores e seguradoras no mundo inteiro precisam ter acesso a informações ligadas aos riscos climáticos das empresas para que seus cálculos de risco e retorno incorporem essa nova categoria de risco. O objetivo é também mapear a concentração de ativos no sistema financeiro dependentes de altas emissões de carbono (chamados de carbon-related assets) e, por consequência, a exposição ao risco climático do sistema financeiro global. Tanto o FSB como o Banco Central do Brasil entendem que as mudanças climáticas são fonte de risco para a estabilidade do sistema financeiro se as empresas que são financiadas (por meio de instrumentos de crédito e investimentos) e seguradas não estiverem fazendo a adequada gestão de risco associado às mudanças climáticas (o chamado “risco carbono”). Em junho de 2017, o FSB publicou o relatório final da FT com as principais recomendações para que o sistema financeiro passe a demandar das empresas investidas maior disclosure com relação ao risco climático. Principais riscos ligados às mudanças climáticas, segundo a Task Force on Climate-Related Financial Disclosures. Segundo a FT há duas categorias de riscos que as mudanças climáticas impõem às organizações: os riscos de transição para uma economia de baixo carbono e os riscos físicos associados às mudanças do clima. Os riscos de transição envolvem impactos financeiros oriundos de mudanças: (i) nas políticas públicas e ambientes regulatórios para se lidar com a mudança climática, tanto do ponto de vista da mitigação de emissões, como adaptação às mudanças climáticas; (ii) tecnológicas, que podem fazer com que tecnologias ligadas a energias renováveis, por exemplo,  tornem-se cada vez mais baratas e acessíveis, tornando obsoletos os investimentos em fósseis  (chamados de stranded assets); (iii) nos mercados, que passam a preferir produtos com menor pegada de carbono; (iv) na avaliação da reputação das empresas, que passam a ser avaliadas também por sua contribuição nos esforços de mitigação de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Os riscos físicos envolvem os impactos de curto, médio e longo prazos sobre as operações da empresa em função dos efeitos das mudanças climáticas, como maiores tempestades ou secas prolongadas. Tanto os riscos de transição como os físicos impactam os resultados financeiros das empresas e, portanto, o binômico risco e retorno de credores,  investidores e seguradoras. Síntese das principais recomendações da Força Tarefa.  A FT recomenda que as empresas organizem suas informações sobre os impactos dos riscos climáticos em torno de quatro áreas temáticas: – Governança do tema dentro da organização, incluindo o envolvimento do Conselho de Administração; – Estratégia da organização para lidar com riscos e oportunidades das mudanças climáticas, incluindo sua avaliação sobre os impactos de curto, médio e longo prazo em seus negócios e seus resultados financeiros; – Gestão do risco climático: como é o processo da organização para lidar com o risco associado às mudanças climáticas, incluindo avaliação de cenários caso o aumento da temperatura atinja os 2oC; – Métricas para avaliação do desempenho com relação às mudanças do clima e objetivos de redução de suas emissões, incluindo disclosure sobre suas emissões de gases de efeito estufa segundo o protocolo GHG. A FT lançou um guia setorial visando orientar as empresas, bancos, investidores e seguradoras para implementar suas recomendações. *** Sem dúvida nenhuma, as recomendações da FT vão impactar como as empresas reportam suas informações ligadas às mudanças climáticas e como bancos, investidores e seguradoras passarão a analisar tais informações como parte de seu processo de avaliação de risco e retorno. As empresas brasileiras têm uma oportunidade única de se posicionarem como líderes na transição para uma economia de baixo carbono. Segundo a plataforma brasileira do GHG (do GVces), em 2016, 336 inventários de emissões de GEE foram publicados, representando 9% das emissões nacionais do Escopo 1 e 14% do consumo de energia elétrica nacional, Escopo 2. A experiência que temos lá no GVces com nossas empresas parcerias é que em relação ao tema da gestão de risco carbono, muitos avanços têm acontecido nos últimos anos. As empresas associadas ao GVces têm participado no relato de suas emissões (http://ghgprotocolbrasil.com.br/), se engajado em discussões de ponta sobre gestão de emissões, precificação de carbono, sistema de comércio de emissões (http://www.empresaspeloclima.com.br/#) e valoração de serviços ecossistêmicos, inclusive os ligado a carbono (http://www.tendenciasemse.com.br/) Embora muito já tenha avançado nesse tema no Brasil, há muito por fazer. E grandes oportunidades para as empresas brasileiras se diferenciarem. *** Para saber mais:

Should I stay or should I go? Trump e o Acordo de Paris.

Desde a campanha eleitoral do Presidente Trump, o tema das mudanças do clima ganhou debates acalorados (sem trocadilhos!); em especial, a permanência dos Estados Unidos no Acordo de Paris (AP). Como eu mencionei aqui, em seu “Contract with the American Voter”, o plano para os 100 primeiros dias de seu mandato, no ponto 7 ligado à agenda de proteção aos trabalhadores americanos, Trump diz que vai cancelar bilhões de pagamentos aos programas ligados às mudanças climáticas sob o guarda-chuva da ONU e usar os recursos para corrigir problemas ligados à infraestrutura de água e ambiental dos Estados Unidos. Desde que assumiu a Casa Branca, a permanência ou não dos Estados Unidos no Acordo de Paris continua sendo bastante debatida. A princípio, a decisão seria tomada em uma reunião no dia 18 de abril, antes da partida de Trump para a reunião do G7 na Itália. Sabe-se que pessoas próximas ao Presidente – incluindo o Secretário de Estado Rex Tillerson, ex-CEO da ExxonMobil e seu genro Jared Kushner – são favoráveis à permanência dos EUA no Acordo. A reunião foi adiada. Em um tweet de 27 de maio, Trump diz que terá uma decisão final sobre Acordo na semana que vem. O interessante é que além de pressão de pessoas próximas ao Presidente para a permanência, várias empresas e investidores têm se manifestado publicamente pró AP. No dia 26 de abril, 16 empresas (Apple, BHP, BP, DuPont, General Mills, Google, Intel, Microsoft, National Grid, Novartis, PG&E, Rio Tinto, Schneider, Shell, Unilever e Walmart) enviaram uma carta ao Presidente, pedindo a permanência no AP.  Mais de 200 investidores institucionais também enviaram uma carta ao Presidente pedindo o mesmo. Mais de 1000 empresas assinaram a iniciativa “Business Backs Low-Carbon USA”. Membros do movimento conservador americano também têm se pronunciado com propostas econômicas para lidar com a mudança do clima, como mencionei aqui. Os EUA ratificaram o AP em setembro de 2016 e o acordo entrou em vigor em novembro do mesmo ano.  Pelas regras do AP, qualquer país precisa esperar três anos antes de requisitar a saída do Acordo e dar um ano de aviso prévio. Isso significa que mesmo que Trump decida sair do AP, muito provavelmente os EUA serão parte do Acordo pelos próximos quatro anos. Há formas de Trump escapar legitimamente a essas regras, mas o custo de transação seria altíssimo, e o custo político também. Então, tudo aponta para que caso ele decida sair do AP, não haverá impacto direto dessa decisão em seu período como Presidente. Vai ficar para o próximo Presidente. Cabe destacar que os EUA ficando no AP apenas para cumprir os regulamentos, sem dúvida enfraquece a chamada “thought leadership” dos EUA na agenda climática. Essa situação estaria, na verdade, longe do espírito de cooperação internacional desenhado pelos 197 países signatários e os 147 que ratificaram o Acordo, incluindo economias em desenvolvimento como Brasil, China, India, Mexico, entre outras. Para saber mais: http://edition.cnn.com/2017/05/12/politics/tillerson-climate-change-fairbanks-declaration/ http://www.reuters.com/article/us-climatechange-investors-idUSKBN18315V?feedType=RSS&feedName=topNews&utm_content=buffer3c56f&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer http://lowcarbonusa.org/business http://www.robertstavinsblog.org