A exposição ao risco associado às mudanças climáticas pelo sistema financeiro global: recomendações do Financial Stability Board.

O Financial Stability Board (FSB) é um organismo internacional que monitora e faz recomendações para o sistema financeiro global.  O FSB congrega autoridades do sistema financeiro global visando o avanço de políticas públicas que assegurem a estabilidade e resiliência do sistema financeiro global. Um dos principais papeis do FSB é identificar riscos sistêmicos que afetam o sistema financeiro global, recomendar políticas públicas que mitiguem tais riscos e supervisionar a implementação dessas políticas públicas. Os membros do FSB são os Bancos Centrais, Ministérios da Fazenda e demais membros do sistema financeiro (do Brasil, por exemplo, a CVM faz parte também) da Argentina, África do Sul, Austrália, Brasil, Canada, China, Espanha, EUA, França, Alemanha, Hong Kong, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coréia do Sul, México, Holanda, Rússia, Arábia Saudita, Singapura, Suíça, Turquia, UK, União Europeia. Também fazem parte o Bank for International Settlements (BIS), FMI, OECD, Banco Mundial, além de outros organismos responsáveis pela supervisão do sistema financeiro global, como o Basel Committee on Banking Supervision.

O presidente do FSB é Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra. Em dezembro de 2015, a pedido do G20, o presidente do FSB lançou uma força tarefa (FT) liderada por Michael Bloomberg, com 32 membros do sistema financeiro global (do Brasil participou a Denise Pavarina, do Bradesco) para avançar na transparência de informações relacionadas à gestão do risco climático por parte de empresas de capital aberto.

A ideia é que em função da materialidade dos impactos associados às mudanças climáticas, credores, investidores e seguradoras no mundo inteiro precisam ter acesso a informações ligadas aos riscos climáticos das empresas para que seus cálculos de risco e retorno incorporem essa nova categoria de risco. O objetivo é também mapear a concentração de ativos no sistema financeiro dependentes de altas emissões de carbono (chamados de carbon-related assets) e, por consequência, a exposição ao risco climático do sistema financeiro global.

Tanto o FSB como o Banco Central do Brasil entendem que as mudanças climáticas são fonte de risco para a estabilidade do sistema financeiro se as empresas que são financiadas (por meio de instrumentos de crédito e investimentos) e seguradas não estiverem fazendo a adequada gestão de risco associado às mudanças climáticas (o chamado “risco carbono”).

Em junho de 2017, o FSB publicou o relatório final da FT com as principais recomendações para que o sistema financeiro passe a demandar das empresas investidas maior disclosure com relação ao risco climático.

Principais riscos ligados às mudanças climáticas, segundo a Task Force on Climate-Related Financial Disclosures.

Segundo a FT há duas categorias de riscos que as mudanças climáticas impõem às organizações: os riscos de transição para uma economia de baixo carbono e os riscos físicos associados às mudanças do clima.

Os riscos de transição envolvem impactos financeiros oriundos de mudanças: (i) nas políticas públicas e ambientes regulatórios para se lidar com a mudança climática, tanto do ponto de vista da mitigação de emissões, como adaptação às mudanças climáticas; (ii) tecnológicas, que podem fazer com que tecnologias ligadas a energias renováveis, por exemplo,  tornem-se cada vez mais baratas e acessíveis, tornando obsoletos os investimentos em fósseis  (chamados de stranded assets); (iii) nos mercados, que passam a preferir produtos com menor pegada de carbono; (iv) na avaliação da reputação das empresas, que passam a ser avaliadas também por sua contribuição nos esforços de mitigação de emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Os riscos físicos envolvem os impactos de curto, médio e longo prazos sobre as operações da empresa em função dos efeitos das mudanças climáticas, como maiores tempestades ou secas prolongadas.

Tanto os riscos de transição como os físicos impactam os resultados financeiros das empresas e, portanto, o binômico risco e retorno de credores,  investidores e seguradoras.

Síntese das principais recomendações da Força Tarefa.

 A FT recomenda que as empresas organizem suas informações sobre os impactos dos riscos climáticos em torno de quatro áreas temáticas:

– Governança do tema dentro da organização, incluindo o envolvimento do Conselho de Administração;

– Estratégia da organização para lidar com riscos e oportunidades das mudanças climáticas, incluindo sua avaliação sobre os impactos de curto, médio e longo prazo em seus negócios e seus resultados financeiros;

– Gestão do risco climático: como é o processo da organização para lidar com o risco associado às mudanças climáticas, incluindo avaliação de cenários caso o aumento da temperatura atinja os 2oC;

– Métricas para avaliação do desempenho com relação às mudanças do clima e objetivos de redução de suas emissões, incluindo disclosure sobre suas emissões de gases de efeito estufa segundo o protocolo GHG.

A FT lançou um guia setorial visando orientar as empresas, bancos, investidores e seguradoras para implementar suas recomendações.

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Sem dúvida nenhuma, as recomendações da FT vão impactar como as empresas reportam suas informações ligadas às mudanças climáticas e como bancos, investidores e seguradoras passarão a analisar tais informações como parte de seu processo de avaliação de risco e retorno.

As empresas brasileiras têm uma oportunidade única de se posicionarem como líderes na transição para uma economia de baixo carbono. Segundo a plataforma brasileira do GHG (do GVces), em 2016, 336 inventários de emissões de GEE foram publicados, representando 9% das emissões nacionais do Escopo 1 e 14% do consumo de energia elétrica nacional, Escopo 2.

A experiência que temos lá no GVces com nossas empresas parcerias é que em relação ao tema da gestão de risco carbono, muitos avanços têm acontecido nos últimos anos. As empresas associadas ao GVces têm participado no relato de suas emissões (http://ghgprotocolbrasil.com.br/), se engajado em discussões de ponta sobre gestão de emissões, precificação de carbono, sistema de comércio de emissões (http://www.empresaspeloclima.com.br/#) e valoração de serviços ecossistêmicos, inclusive os ligado a carbono (http://www.tendenciasemse.com.br/)

Embora muito já tenha avançado nesse tema no Brasil, há muito por fazer. E grandes oportunidades para as empresas brasileiras se diferenciarem.

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Para saber mais:

https://www.fsb-tcfd.org/about/#