Sustentabilidade e desempenho financeiro: um estudo com 180 empresas americanas

Annelise Vendramini (com colaboração de Ana Paula Mello e Mylena Sato)

Com o objetivo de entender os efeitos da gestão para a sustentabilidade sobre o desempenho organizacional, os Professores Robert Eccles e George Serafeim de Harvard e Ioannis Ioannou da London Business School desenvolveram um estudo que comparou 180 empresas nos Estados Unidos pelo período de 1993 a 2009, dividindo-as em dois grupos amostrais: 90 empresas foram classificadas como High Sustainability (HS) e outras 90, de setores comparáveis, como Low Sustainability (LS). Foram denominadas High Sustainability Companies, aquelas que  adotaram diversas políticas ambientais e sociais ao longo do período estudado. As Low Sustainability Companies seriam as que adotaram pouca ou nenhuma destas políticas. No conjunto das políticas consideradas foram selecionadas ações ligadas a aspectos socioambientais em relação ao meio ambiente, aos colaboradores, à comunidade, aos produtos e aos clientes.

Os autores concluíram, depois de analisar os dados de desempenho dessas empresas ao longo do tempo, que empresas High Sustainability  superam o desempenho de empresas LS no longo prazo, tanto do ponto de vista do mercado de ações, quanto do desempenho contábil. As empresas HS possuem Conselhos de Administração  mais responsáveis em relação às questões ambientais, maior solidez no processo de engajamento de stakeholders, orientação estratégica de longo prazo, melhor mensuração e divulgação de informações de caráter não-financeiro.

Importância do Conselho de Administração nas HS companies

São dois os elementos fundamentais de um sistema de governança corporativa: (i) a atuação efetiva dos Conselhos de Administração; e (ii) uma “boa” estrutura de incentivos (bonificação) para o alto escalão, alinhando-os aos interesses de longo prazo dos acionistas. Os conselhos desempenham um papel importante de monitoramento do desempenho da empresa no longo prazo. A inserção de métricas não-financeiras nos mecanismos de bonificação de executivos é fundamental para assegurar a longevidade da organização.

Os autores observaram que dentre as High Sustainability Companies, 53% das empresas atribuem responsabilidade formal sobre questões de sustentabilidade ao conselho de administração. Já no grupo das Low Sustainability Companies, essa parcela é de apenas 22%. Outro comportamento evidenciado no estudo é que, dentre as empresas do primeiro grupo, 41% trabalham com a formação de comitês de diretoria exclusivos para lidar com questões de sustentabilidade. Quanto à remuneração dos executivos seniores, cerca de 30% das empresas do primeiro grupo vinculam as compensações às métricas de sustentabilidade, além das métricas financeiras. Já nas empresas Low Sustainability, esse vínculo é de apenas 13%. Sendo assim, as High Sustainability Companies são mais propensas a utilizarem incentivos monetários para que os executivos considerem aspectos não-financeiros do desempenho corporativo na tomada de decisão.

A relação com stakeholders é chave no desempenho superior das HS companies

As High Sustainability Companies consideram um grupo mais amplo de stakeholders como parte de sua estratégia corporativa quando comparadas às Low Sustainability Companies, As HS priorizam o engajamento de stakeholders, adotando uma postura mais responsável preocupada em entender as necessidades dos diversos stakeholders, investindo nessas relações. O engajamento efetivo de stakeholders requer estratégia e visão de longo prazo para se estabelecer relações de confiança e cooperação mútuas, construídas e sustentadas ao longo do tempo. Ações de curto prazo podem, na verdade, prejudicar o relacionamento com stakeholders estratégicos.

Quando se trata de sustentabilidade, visão de longo prazo é essencial

A visão de longo-prazo é um elemento importante para a integração de aspectos ambientais e sociais à estratégia organizacional. As High Sustainability Companies mantiveram estratégia de sustentabilidade no longo prazo. Seu desempenho financeiro foi superior considerando um horizonte de tempo mais amplo e mostraram-se capazes de atrair investidores de longo prazo em detrimento de investidores “passageiros”, mais interessados na geração de resultados de curto prazo.

Para saber mais: 

http://www.hbs.edu/faculty/Publication%20Files/SSRN-id1964011_6791edac-7daa-4603-a220-4a0c6c7a3f7a.pdf