Há um intenso debate nos fóruns ligados à sustentabilidade, pós eleição do Trump, sobre o que seria das políticas climáticas da administração Obama (democrata). Em um post aqui eu falei um pouco sobre isso.
Os conservadores, representados pelo partido Republicano, não acreditam em mudanças climáticas? Bem, não sei se é assim. Naturalmente, nos dois partidos há céticos e crentes no fato de que as altas concentrações de gases de efeito estufa (GEE) estejam levando e possam levar cada vez mais a alterações climáticas importantes. Os céticos estão mais bem acomodados entre republicanos que democratas, já que a agenda do clima tende a ser mais presente na “esquerda” que na “direita”.
O que certamente difere um grupo do outro são dois aspectos: (i) qual o papel do estado na intervenção sobre a economia para alterar o rumo das mudanças climáticas; (ii) qual o papel de “intervenção” da comunidade internacional nas discussões sobre políticas domésticas para conter a mudança do clima. Nesses dois aspectos, democratas e republicanos (falando apenas daqueles que não são céticos) diferem fortemente. Simplificações e generalizações são perigosas, mas para uma visão geral da questão, não me resta outra saída.
Uma visão diferente sobre o protagonismo do estado
Democratas (liberais), em geral, acreditam que o governo federal tem um papel mais forte a desempenhar como orquestrador de políticas públicas, incluindo as climáticas. Republicanos (conservadores) acreditam em um estado menor, com menor papel do governo federal (incluindo aí agências reguladoras) e maior papel regulador para os estados e para iniciativas de autorregulação. Há descontentamento por parte dos Republicanos quanto à decisão de políticas climáticas ficarem “fortes” na mão das ordens executivas (a nossa medida provisória – solução que depende da caneta do presidente) e das agências reguladoras federais, como a Environmental Protection Agency – EPA. Cabe aqui ressaltar também que parte do movimento conservador considera que a imprecisão da ciência climática seria mais uma razão para evitar “dar um cheque em branco” ao governo federal para que tome decisões – que terão grandes impactos econômicos – quanto à redução de emissões de GEE.
Há também conservadores que, assim como democratas, acreditam que mesmo com uma ciência imprecisa, há indícios suficientes de que o problema das mudanças climáticas seja real e demanda ação já – o chamado “princípio da precaução”, ou em termos econômicos, um seguro caso aspectos ligados a mudanças climáticas sejam comprovados com menor grau de incerteza pela comunidade científica. Mas que essa ação seja orquestrada pelos níveis sub federais e com maior presença do mercado, ao invés de políticas de comando-e-controle centralizadas no governo federal.
Globalismo e Globalização
Outro fator de discordância é quanto ao papel que a comunidade internacional deve ter na definição de políticas domésticas. Ou posto de outra forma, o quanto a comunidade internacional deve influenciar as políticas domésticas. Esse, aliás, é um tema muito caro aos conservadores de maneira geral, não apenas os americanos: o chamado globalismo. Globalismo e globalização são conceitos interligados, mas um pouco diferentes.
Globalismo, conceito recente nas ciências sociais, refere-se ao processo de aprofundamento da internacionalização, fortalecendo dimensões funcionais (redes) e enfraquecendo as dimensões territoriais. É geralmente um termo aplicado aos aspectos econômicos desse processo. Implica crescimento do mercado global, de maneira crescente penetrando e dominando as economias nacionais, que no processo perdem um pouco de sua autonomia.
Globalização refere-se ao grau de globalismo: se intenso ou mais “fraco”. Globalização refere-se ao dinamismo e velocidade com que o globalismo se torna mais ou menos intenso. Quanto maior o grau de globalismo, ou seja, maior a intensidade das conexões entre as redes internacionais, maior a interdependência entre essas redes, havendo intersecções em níveis mais profundos (políticos, econômicos, sociais). Tanto globalismo como globalização são conceitos ligados à história humana. A “Silk Road” e a Companhia das Índias Ocidentais são exemplos desses movimentos muito antes mesmo de haver um nome para eles. Mas o que está em discussão no movimento conservador atual é quão poderosa é essa rede, sua escala e, principalmente, quanto o poder de uma decisão tomada dentro da rede afeta políticas domésticas. Afinal, lideranças internacionais não eleitas tomando decisões fora do ambiente nacional não deveriam, na opinião dos conservadores, impor suas decisões sobre o ambiente doméstico, esse sim caracterizado por eleições e governança democráticas. Se perguntam os conservadores: o ambiente doméstico é accountable para seus cidadãos, mas a quem respondem as lideranças de movimentos e organizações internacionais? Essa discussão está na base do debate sobre o Brexit, por exemplo, e explica parte da reticência da administração americana atual com ambientes internacionais de negociação, como as Nações Unidas e os acordos climáticos debatidos nesse fórum.
A parte 2 desse post apresentará uma recente proposta conservadora americana para lidar com o problema das mudanças climáticas.
Para saber mais:
http://www.theamericanconservative.com/jacobs/roger-scruton-and-environmental-conservatism/
http://www.esquire.com/news-politics/news/a49235/climate-change-belief-republicans/
Notas:
Os termos liberais e conservadores nesse post referem-se a como são utilizados no sistema político americano. Democratas são os liberais (do ponto de vista social) e os Republicanos os conservadores (do ponto de vista social também).
Agradeço ao Thomas Felsberg pela leitura crítica e contribuições para esse texto.