Mercado de finanças da conservação: um potencial caminho para o Brasil.

Investimento em conservação (em inglês, Conservation Finance) são investimentos intencionais em empresas, fundos, projetos, organizações, com o objetivo de gerar dois tipos de resultados: (i) retorno financeiro; e (ii) retorno ambiental, mensurável e verificável. O interessante é que se trata de investimento privado que busca encontrar bons projetos ligados à conservação de vegetação.

Esse é um mercado emergente porque em geral, a maior parte dos recursos destinados à conservação da vegetação é de origem pública. Entretanto, esse mercado surgiu porque avança a compreensão de que é preciso preservar e conservar os ecossistemas para que nos beneficiemos dos serviços que eles nos prestam e que estão na base de toda a vida e de toda a atividade econômica: provisão de alimentos e água, purificação do ar, equilíbrio climático, formação de solo, bem-estar cênico, entre outros. O tamanho do desafio é de tal ordem – lembrando que em 200 anos de revolução industrial a população passou de um pouco menos de 1 bilhão em torno de 1800 para 7,5 bilhões em 2017, e que tal crescimento populacional pressiona fortemente os recursos naturais -, que recursos públicos não vão conseguir atender à toda a demanda por recursos para conservação da vegetação. Assim, há espaço e necessidade para a participação do capital privado.

Esse tipo de mercado vem crescendo substancialmente. Um estudo lançado em janeiro de 2017 e realizado pelo banco JP Morgan e The Nature Conservancy (TNC) junto a investidores em conservação –  foram entrevistados um total de 128 bancos, empresas gestores de fundos, family offices, fundações e ONGs que investem em conservação – trouxe resultados interessantes. O estudo foi feito com respondentes da América do Norte (80), América Latina (11), Europa (28), África (3), Ásia (3) e Oceania (3).

O total de capital privado comprometido com conservação totalizou US$ 2 bilhões em 2015, um incremento de 82% em relação a 2014 (US$ 1 bilhão). No período compreendido entre 2004 e 2015, esse montante chegou a US$ 8,2 bilhões. A média anual desse tipo de investimento no período 2004 – 2008 foi de US$ 0,2 bilhão.

O principal destino desses investimentos no período entre 2004-2015 foi predominantemente agricultura sustentável e produção de fibras (80%), seguido de conservação de habitats (16%) e quantidade e qualidade da água (4%).

Investimentos em agricultura sustentável e produção de fibras incluem empresas em agricultura sustentável, gestão sustentável de terras agrícolas, pecuária sustentável, produção sustentável de madeira, aquicultura sustentável. Para que essas atividades sejam sustentáveis é preciso conservação e preservação da vegetação. Nessa categoria de investimentos, o principal destino foi para agricultura sustentável e florestas.

Investimentos em conservação de habitats inclui a proteção de espécies e habitat (biodiversidade) por meio da compra de terras; investimentos em carbono florestal e mecanismos de compensação de áreas de vegetação (como são as Cotas de Reserva Ambiental no Brasil). Nessa categoria de investimentos, o principal destino foi para compra de terra para conservar.

Investimentos em quantidade e qualidade da água inclui proteção de bacias hidrográficas; conservação e melhoria da infraestrutura para equilibrar as necessidades humanas com os ecossistemas; gestão da água de chuva; e comercialização de créditos de qualidade ou quantidade de água.

Caminhos para o Brasil

O investimento em conservação no Brasil ainda é predominantemente público, por meio das Unidades de Conservação instituídas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), Lei Federal n. 9985, de 2000.

Entretanto, considerando o perfil florestal do Brasil (possui a maior extensão de florestas tropicais e a segunda maior cobertura florestal do mundo), a pujança de nosso agronegócio e o desafio de conciliarmos produção econômica com proteção e conservação vegetal (vide o debate sobre o Novo Código Florestal) de maneira economicamente eficiente, faria todo o sentido o Brasil avançar em medidas que a viabilizassem a participação do investidor privado em mercados ligados à proteção dos ecossistemas.

Em 2016, nós do GVces estudamos a pedido da Coalizão Clima, Floresta e Agricultura, as necessidades de recursos para se avançar no manejo florestal sustentável na Amazônia e os ganhos para o país em termos de PIB, empregos, impostos e balança comercial caso esses investimentos fossem feitos. É triste ver que cerca de 80%  da produção de madeira em tora no Brasil é ilegal. Ou seja, há um potencial enorme de desenvolvimento do mercado madeireiro e não madeireiro, mas que não consegue florescer em função da competição desigual com a ilegalidade. Os resultados do nosso estudo podem ser acessados no nosso site: http://mediadrawer.gvces.com.br/abc/original/gvces_resumo-executivo_manejo-final.pdf

Considerando a conjuntura econômica brasileira e o crescimento dos mercados internacionais ligados à conservação, o Brasil poderia e deveria estar desenvolvendo caminhos para que esses recursos privados fossem alocados aqui.  Somos uma potência da sustentabilidade com competitividade econômica, mas para que esse potencial se viabilize uma série de políticas públicas destinadas ao desenvolvimento de mercados é necessária.

Para saber mais:

http://www.forest-trends.org/documents/files/doc_5474.pdf#

http://mediadrawer.gvces.com.br/abc/original/gvces_resumo-executivo_manejo-final.pdf