O que são finanças sustentáveis?

[Texto originalmente publicado em noomis.febraban.org.br em fevereiro de 2021]

Acompanhando o noticiário financeiro recente você certamente se deparou com alguns termos cada vez mais frequentes: ESG, Green Bonds, Sustainability-Linked Bonds, social bonds, greenwashing, diversidade. Um observador desse movimento pode estar se perguntando: afinal, o mundo financeiro passou a se interessar pelo que acontece no meio ambiente e com questões sociais? A resposta é sim e já há algum tempo.

E para explicar esse fenômeno é importante entender que ele faz parte de um ramo das finanças: as chamadas finanças sustentáveis. Talvez você já conheça o termo, talvez não. Mas finanças sustentáveis – tradução do termo em inglês original “sustainable finance” – é o guarda-chuva sob o qual estão todos esses termos. Mas o que são finanças sustentáveis?

Antes de definirmos o termo, vamos dividi-lo em duas partes: finanças e sustentáveis. Vamos fazer uma equação? Finanças sustentáveis = finanças + sustentabilidade.

O que são finanças?

O termo amplo “Finanças” é geralmente apresentado como a arte e a ciência da gestão do dinheiro[1]. Todas as pessoas e organizações em uma sociedade lidam com dinheiro. Finanças é o campo do conhecimento que lida com os processos, instituições, mercados, instrumentos associados à transferência de dinheiro entre os atores de uma sociedade. Envolve, portanto, pessoas, instituições, empresas, agentes governamentais, o mercado.

Acabei de apresentar a definição mais comum de finanças, mas eu prefiro a dada pelo mestre Robert Shiller, Nobel de Economia em 2013: “Em seu sentido mais amplo, finanças é a ciência da arquitetura de metas – da estruturação dos arranjos econômicos necessários para atingir um conjunto de metas e da administração dos ativos necessários para essa realização.” [2] As pessoas têm metas como aposentar-se ou pagar pelos estudos dos filhos; as empresas têm metas de investimentos; os governos têm metas como criarem hospitais ou um novo sistema de seguridade social. Todos eles precisam de recursos para o atingimento dessas metas e o papel das finanças é justamente contribuir para isso. Conta-nos Shiller que a palavra “finanças” deriva de um termo em latim que significa meta. Os objetivos que as finanças vão perseguir são originados em cada um de nós, em nossos desejos, sonhos e planos. Refletem “nossos interesses em nossa carreira, esperanças para nossas famílias, ambições para nossos negócios, aspirações para nossa cultura e ideais para nossa sociedade. As finanças em si não nos dizem quais devem ser os objetivos.”[3]

Complementos para o termo “finanças” surgem para diferenciar os diferentes recortes deste amplo campo. Por exemplo, “finanças corporativas” para tratar da relação entre empresas e dinheiro; “finanças pessoais” para a relação entre as pessoas e o dinheiro; “finanças públicas”, entre governo e o dinheiro, incluindo o sistema tributário; “sistema financeiro” para o conjunto de instituições que promovem a intermediação financeira. Há também adjetivos temáticos para as finanças. Por exemplo, “finanças comportamentais” que considera a influência da psicologia nas decisões financeiras ou “finanças da infraestrutura” que se debruça sobre formas de viabilizar financeiramente especificamente grandes projetos de infraestrutura.

Há dois conceitos fundamentais em finanças: o chamado “valor do dinheiro no tempo” e risco-retorno. O “valor do dinheiro no tempo” trata da crença de que R$ 10,00 hoje são preferíveis a R$ 10,00 daqui a um ano. Chama-se isso de preferência temporal. Os gestores financeiros preferem receber dinheiro o mais cedo possível em função das incertezas associadas ao decorrer do tempo e do potencial de investimento desse recurso. Ao receber esses R$ 10,00 hoje eu posso aplicá-lo e me beneficiar dos juros ganhos com essa aplicação.

Já a noção de risco-retorno diz respeito aos dois lados de uma mesma moeda. Cada decisão financeira tem um retorno e um risco a ela associada. Risco é a variabilidade de retornos, a possibilidade de perdas; e retorno é o ganho ou perda total sofrido por um investimento em um certo período. Analistas financeiros buscam sempre entender qual o retorno ajustado ao risco de uma determinada decisão financeira.

As preocupações com aspectos sociais e ambientais nas decisões financeiras são tão antigas quanto as próprias atividades de investir e gerir. Nos séculos 17 e 18, por exemplo, os Quackers e os Metodistas já tinham critérios sociais e ambientais tratando de quais atividades poderiam investir. Na década de 1970, houve uma campanha de desinvestimento por parte de investidores descontentes com o sistema do apartheid na África do Sul [4].  Nas chamadas finanças corporativas, há décadas gestores de empresas se preocupam com filantropia e responsabilidade social corporativa.

O “sustentável” em “finanças sustentáveis”

Sustentável é um adjetivo derivado dos conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. Nosso modelo de produção e consumo após a Revolução Industrial trouxe muitos avanços materiais nesses poucos mais de 200 anos de história. Mas trouxe também a superação de alguns limites ecossistêmicos e muitos desafios sociais. Há uma ampla compreensão de que precisamos adequar nossos sistemas econômicos aos limites planetários e resolver importantes problemas sociais. Esse é o futuro desejado, em que vivamos sustentavelmente. O caminho para chegar até lá precisará contar com políticas econômicas que visem a sustentabilidade: o desenvolvimento sustentável, termo cunhado no relatório da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU na década de 1980. No fundo, estamos falando de possibilitar uma trajetória econômica que vise sair desse estado de insustentabilidade para um estado de maior sustentabilidade. Para que essa transição aconteça serão necessários investimentos e maciça alocação de capital em inovação e atividades produtivas mais alinhadas aos princípios da sustentabilidade.

A tradução das preocupações com o desenvolvimento sustentável no mundo financeiro ganhou maior tração, entre outros eventos, após a fundação em 2003 dos Princípios do Equador (critérios socioambientais para concessão de crédito na modalidade project finance) e a criação em 2005 pela ONU dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI, na sigla em inglês), engajando tanto as atividades de crédito como investimentos em preocupações socioambientais.   

Voilá: as Finanças Sustentáveis

Finanças sustentáveis, portanto, buscam alocar dinheiro em atividades que contribuam para a sustentabilidade, incorporando o valor do dinheiro no tempo e as noções de risco – retorno. Por essa razão, são algumas as divisões das finanças sustentáveis.

As finanças corporativas são sustentáveis quando as empresas com estratégias de sustentabilidade analisam (e priorizam) em seu pipeline de investimentos aqueles mais alinhados à sustentabilidade ou quando buscam viabilizar seus planos de investimentos em projetos mais sustentáveis por meio de empréstimos bancários verdes ou via mercado de capitais (como os títulos verdes, sociais, sustentáveis, por exemplo).

No mercado financeiro, por exemplo, as finanças sustentáveis se manifestam quando as casas gestoras de ativos incorporam preocupações ambientais, sociais e de governança em suas decisões de investimento; e quando os bancos incorporam critérios socioambientais na análise do risco de crédito. Nas finanças pessoais, quando as pessoas se preocupam com aspectos socioambientais na alocação de seus investimentos.

Finanças e sustentabilidade têm algo em comum: ambas procuram antecipar e compreender as consequências futuras de uma decisão no presente.

Teoricamente, não necessariamente há contradição entre finanças e sustentabilidade. Sustentabilidade é a meta almejada e as finanças são os arranjos econômicos necessários para o atingimento desta meta. Porém, muitas vezes no dia a dia das decisões, no processo de alocar recursos financeiros para a projetos de sustentabilidade, os analistas muitas vezes se deparam com dificuldades para estimar o retorno ajustado ao risco de uma decisão (vários aspectos da sustentabilidade são de difícil quantificação) ou se veem compelidos a tomarem decisões de curto prazo mais alinhadas aos seus objetivos financeiros. Para diminuir a tensão entre finanças e sustentabilidade é preciso deixar a meta da sustentabilidade clara, explícita. Um exemplo disso é incorporar algumas externalidades socioambientais nos preços da economia, algo que já é feito por mais de 40 países no mundo [5].  Com isso, aproximamos ainda mais as decisões financeiras das decisões para a sustentabilidade.

Nos últimos dez anos, as finanças sustentáveis têm crescido em importância e ganho representatividade em todas as suas ramificações. Eu acredito que na próxima década veremos ainda maior consolidação de seus conceitos nas empresas, nos governos, nas finanças pessoais e no setor financeiro. Mas é bom lembrar: a aproximação entre finanças e sustentabilidade se dará em maior escala quando a sustentabilidade estiver nos sonhos e desejos e for meta de cada um de nós.


[1]   Gitman, L. J. (2010). Princípios de administração financeira (12a. ed.). São Paulo: Pearson Educación.

[2]   Shiller, R. (2012). Finance and the Good Society. London: Princeton University Press

[3]   Idem.

[4]   CFA Institute – Chapter 2, The ESG Market.

[5]   Carbon Pricing Dashboard: https://carbonpricingdashboard.worldbank.org/