Reflexões sobre taxas de juros negativas.

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2020, o presidente Donald Trump disse que o FED deveria reduzir as taxas de juros básicas da economia para tornar os EUA competitivos com outros países que já praticam taxas negativas. Cerca de US$ 17 trilhões em títulos de dívida (maior parte emitidos por governos) têm taxas negativas (negative yield), representando cerca de 20% do mercado global de bonds; ou seja, os investidores recebem menos dinheiro do que investiram nesses títulos. A princípio pode parecer interessante, mas tem lá seus problemas.

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É difícil imaginar taxas de juros negativas. O mundo econômico é regido por preferência temporal e avaliação de risco e retorno (o retorno deve ser de acordo com o risco). Preferimos R$100,00 hoje do que os mesmos R$ 100,00 em um ano. Assim, quem pega dinheiro emprestado precisa remunerar quem emprestou o dinheiro pelo risco e pelo tempo (duas noções profundamente conectadas, claro). Isso vale para o mercado investidor: se eu invisto em uma ação ou em um título, espero ser remunerada de acordo com o risco. Há modelos matemáticos bastante sofisticados para se calcular as taxas esperadas para a remuneração de um determinado investimento, considerando o retorno ajustado ao risco. Segundo Warren Buffet, as taxas de juros funcionam para a economia como a gravidade funciona para nós. Sem elas, os preços dos ativos seriam maiores. A taxa de juros básica da economia é um elemento importante para os cálculos das taxas de juros/desconto/retorno esperadas no mundo financeiro. Ou seja, a taxa de juros básicas da economia é a referência para os demais cálculos de taxas esperadas.

Até 2012 a regra geral era considerar que o limite inferior para as taxas de juros era zero. Em julho de 2012, entretanto, algo inusitado aconteceu: o banco central da Dinamarca estabeleceu que a taxa de juros sobre certificados de depósitos bancários passou a ser -0,20% aa, entrando em terreno de juros negativos. Esse movimento foi seguido pelo European Central Bank (ECB) em junho de 2014, Suíça em 2014, Suécia em 2015 e Japão em 2016. Esse movimento acontece para tentar estimular economias que não crescem, ainda sofrendo efeitos da crise de 2008. Quando apenas reduzir as taxas de juros não funcionou, esses bancos centrais inovaram entrando em taxas negativas, com o objetivo de dar um boost no crescimento econômico ao penalizar a poupança e incentivar o consumo e investimentos. Em alguns casos localizados, os clientes dos bancos “recebem” taxas de juros negativas. Mas é bom lembrar que essas são as taxas que influenciam toda a economia; funcionam como o ponto de partida sobre a qual os spreads são adicionados. Além do mercado bancário, as taxas negativas têm impactado o mercado de renda fixa.

Quem conviveu com décadas de altas taxas de juros aqui no Brasil talvez sonhe com taxas de juros negativas. Mas elas invertem completamente a lógica econômica. Seus efeitos de longo prazo na economia ainda precisam ser avaliados. Alguns dos riscos envolvendo a persistência desse fenômeno são:

  • As pessoas podem manter dinheiro em espécie. Quando as taxas de juros são negativas, paga-se ao banco para deixar o dinheiro lá. Mas, é possível simplesmente tirar o dinheiro do banco e mantê-lo em casa (como na velha piada de mantê-lo em um colchão, por exemplo). Dinheiro em espécie é uma opção a juro zero e funciona como o piso da taxa de juros. As pessoas podem manter o dinheiro em casa com medo do que pode acontecer na economia, afinal pagar para manter seu dinheiro no banco é uma inversão da expectativa que temos a respeito de como funciona o sistema financeiro. Assim, as pessoas também não consomem, não investem. Não que essa opção seja livre de risco (o dinheiro pode ser roubado, perdido ou destruído). O efeito sobre o crescimento econômico é perverso. Parte das discussões sobre uma cashless society passa também por política monetária. Não por coincidência essa discussão é mais contundente na Europa, que já convive com taxas de juros negativas há algum tempo.
  • As margens dos bancos ficam menores. Toda a lógica do sistema financeiro foi concebida a partir de taxas de juros positivas. Taxas negativas reduzem as margens dos bancos colocando forte pressão sobre a resiliência do sistema financeiro. Com baixa rentabilidade, os agentes financeiros buscam cada vez mais risco, estressando a resiliência do sistema. Décadas de crises financeiras nos ensinam isso.
  • Podem se formar bolhas nos ativos da economia real (mercado imobiliário, por exemplo) e em ativos financeiros (como preço de ações). Quando as pessoas buscam maior risco visando maior rentabilidade para fugir das baixas taxas de juros, o risco de crises econômicas decorrentes de bolhas não é trivial.

Quando há crises econômicas graves, em média os bancos centrais reduzem as taxas de juros de 3 a 6 pontos percentuais. O problema é que após a crise de 2008 poucos países hoje têm espaço para uma redução desse nível sem entrar em taxas negativas. Esse gráfico do FMI a seguir aponta que, no exemplo dos países analisados, apenas Turquia, México e Islândia têm algum espaço para isso:

Fig: Taxas de juros, em %, 2017. (Fonte: FMI)

FMI

A crise econômica associada ao coronavirus talvez vá demandar reduções adicionais de taxas de juros em algumas economias. O FED, por exemplo, reduziu 0,5 ponto percentual no começo de março, mantendo as taxas na faixa de 1% a 1,25% aa já prevendo o impacto do vírus na economia. Um cenário com mais países com taxas de juros negativas representa volatilidade adicional na economia global.

Para saber mais:

https://blogs.imf.org/2019/02/05/cashing-in-how-to-make-negative-interest-rates-work

https://www6.royalbank.com/assets/di-secure/images/article/investing-academy/2020/economic-compass-low-rates.pdf