
(Continuação da reflexão iniciada aqui: https://the-nestegg.com/2019/11/27/inovacao-tecnologica-mercado-bancario-sustentabilidade/)
***
Se você acompanhou os resultados financeiros dos bancos em 2019, percebeu que apesar da situação macroeconômica difícil no país, os bancos continuam lucrativos, com resultados “recorde”, segundo essa reportagem do Valor. https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/14/lucro-de-bancos-e-recorde-mas-deve-desacelerar-em-2020.ghtml. Mas o futuro do mercado bancário terá novidades, já que o mercado bancário global passa por uma transição, em função, entre outras coisas, do processo de transformação digital. E como essas novidades afetarão as atividades de intermediação financeira e o desempenho dos bancos, não se sabe ainda.
Historicamente, o sistema financeiro sempre investiu bastante em tecnologia; é, na verdade, um setor bem tecnológico, principalmente o brasileiro. Isso não é novidade. No Brasil, a novidade está na implementação do ecossistema de pagamentos instantâneos e no open banking, nas fintechs. Em 2015 a quantidade de fintechs no Brasil era 56; em 2019, mais de 550.
O sistema bancário vai enfrentar o que outros setores como indústria, hotelaria, mobilidade urbana, cinema, literatura, música já enfrentam. A questão é que a transformação digital no sistema financeiro (SF) tem caráter distinto dos outros setores, porque o SF diz respeito ao dinheiro que circula na sociedade e mudanças ali repercutem de maneira amplificada na sociedade. Basta pensar nos impactos sociais de crises financeiras.
Quando se analisa o SF brasileiro, é importante considerar não apenas a lucratividade e rentabilidade, mas também solvência e liquidez. O sistema brasileiro tem níveis de solvência (Índice de Capital Principal, Risk-Weighted Assets) e liquidez superiores aos requerimentos legais. Os testes de resiliência (testes de estresse) apontam que o nosso sistema tem capacidade de absorção de perdas em cenários macroeconômicos adversos. É um setor “confortável” do ponto de vista do risco sistêmico para a sociedade. Isso é uma boa notícia e uma razão importante que explica por que o nosso sistema não sofreu perdas significativas com a crise de 2008. Para quem se preocupa com questões socioambientais, o nosso sistema tem regulações, autorregulação e acordos voluntários para incorporar esses aspectos nas decisões de crédito.
Por outro lado, globalmente o crescimento em capitalização de mercado dos ativos ligados a crypto moedas, principalmente bitcoin, levanta preocupações dos reguladores quanto à estabilidade e resiliência dos sistemas financeiros. Esses ativos caracterizam-se por alta volatilidade, alta tecnologia embarcada, anonimidade. Nos últimos anos, plataformas para trading de crypto ativos foram hackeadas e os ativos dos clientes roubados. Esses incidentes levaram a perdas de centenas de milhões de dólares para investidores e provedores dessas plataformas. Há risco de fraude, uso desses ativos para lavagem de dinheiro, financiamento de práticas criminosas de terrorismo etc. A transformação digital vai muito além do que os crypto ativos, claro. Embora o processo de transformação digital seja irrefreável é interessante analisar suas implicações positivas e negativas para a sociedade.
Mas no Brasil os desafios de maior acesso a crédito e de aumento da concorrência permanecem.
O último Relatório de Estabilidade Financeira (REF, out de 2019) aponta que houve avanço na concessão de crédito para PMEs, enquanto a tendência das grandes empresas tem sido buscar o mercado de capitais para se financiar. O financiamento às pessoas físicas aumentou principalmente com relação às modalidades relacionadas ao consumo, como financiamento pessoal e de veículos. Para os bancos, de maneira geral, o financiamento às pessoas físicas e PME é mais rentável que às grandes empresas, porque os spreads bancários são maiores. As fintechs surgem também para dinamizar o mercado de acesso a crédito, reduzindo os custos de transação.
A tecnologia tem vida própria e é uma resposta à busca de soluções de problemas reais enfrentados pela sociedade. A ebulição pela qual passa setor não tem apenas competição entre líderes e novos entrantes; tem colaboração também. Os grandes bancos têm investido em iniciativas digitais e no ecossistema de inovação, em parceria com startups. O Banco Central implantou o LIFT, Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas.
“O futuro não é mais como era antigamente”, como diria Renato Russo. O futuro da intermediação financeira no Brasil e no mundo é ainda desconhecido. Há muita discussão na academia e nos fóruns internacionais, como FMI e BIS, de como essa transformação digital impactará o acesso crédito, a resiliência dos sistemas financeiros e o escopo e o papel da supervisão bancária. E eu adiciono: quais seus impactos potenciais sobre questões socioambientais.
Para saber mais: