
As discussões políticas sobre mudanças do clima nos EUA já começaram quentes em 2019 (perdão pelo trocadilho!). Acompanhar essa discussão nos Estados Unidos é importante porque: (i) trata-se do segundo maior emissor global de gases de efeito estufa; (ii) tem um presidente que não é amigável ao tema (apesar de empresas e estados terem adotado políticas para redução de emissões como mencionei aqui e aqui); e (iii) parece que a agenda do clima estará presente com força na campanha presidencial de 2020 (veremos).
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Em janeiro desse ano, em um anúncio no Wall Street Journal https://www.wsj.com/articles/economists-statement-on-carbon-dividends-11547682910 3.333 economistas americanos, 4 ex-presidentes do Banco Central Americano, 27 prêmios Nobel em Economia, 15 ex-presidentes do Council of Economic Advisors e 2 ex-secretários do Treasury americano manifestaram apoio ao plano chamado de “Carbon Dividends” que apresentei sucintamente aqui e aqui. Eu fico imaginando como seria uma reunião desse grupo! Entre os nomes de peso que assinam o manifesto estão Oliver Hart, Greenspan, Eric Maskin, Sharpe, Robert Shiller, Solow, Thaler, Paulo Volcker, Janet Yellen.
Sem dúvida nenhuma a proposta do “Carbon Dividends” vem ganhando momentum por ser bi-partidária, agregando republicanos e democratas, mas com importante apoio de lideranças republicanas.
Uma outra proposta
Em 07 de fevereiro desse ano uma outra proposta ganhou os holofotes: o lançamento de uma Resolução chamada de “Green New Deal”, elaborada pela nova estrela do partido democrata, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (representante do estado de Nova York) e pelo senador por Massachusetts, Ed Marke. A Resolução foi apoiada fortemente pelos possíveis candidatos democratas à nominação para a Presidência da República em 2020: Elizabeth Warren, Cory Booker, Kirsten Gillibrand e Kamala Harris.
Mas do que trata essa Resolução?
A Resolução propõe uma mobilização nacional por dez anos e tem cinco macro objetivos:
- Alcançar zero emissões líquidas de gases de efeito estufa (net-zero) por meio de uma transição justa para todas as comunidades e trabalhadores;
- Criar milhões de bons empregos com alto salário; garantir prosperidade e segurança econômica para todos os povos dos Estados Unidos;
- Investir na infraestrutura e na indústria dos Estados Unidos para enfrentar de forma sustentável os desafios do século 21;
- Garantir ar e água limpos, resiliência climática e comunitária, alimentação saudável, acesso à natureza e um ambiente sustentável para todos;
- Promover a justiça e a equidade, interrompendo a atual, futura e reparando a opressão histórica das comunidades fronteiriças e vulneráveis.
Ao ler a Resolução (https://ocasio-cortez.house.gov/sites/ocasio-cortez.house.gov/files/Resolution%20on%20a%20Green%20New%20Deal.pdf) percebe-se que se trata de uma carta de intenções com nada de aspectos concretos e práticos. Por se tratar de uma proposta do Partido Democrata e por ter sido chamada de “New Deal” a Resolução lista o possível papel do governo na transição para a economia de baixo carbono e não discute a contribuição privada nessa transição. Tampouco discute como viabilizar economicamente os elementos apresentados no documento.
Na Resolução constam aspectos que vão muito além de questões ambientais e climáticas. Por exemplo:
“strengthening and enforcing labor, workplace health and safety, antidiscrimination, and wage and hour standards across all employers, industries, and sectors;” (Pg 12, linhas 20 a 23)
“to stop the transfer of jobs and pollution overseas; and (ii) to grow domestic manufacturing in the United States;” (Pg. 13, linhas 3 a 6)
“ensuring a commercial environment where every businessperson is free from unfair competition and domination by domestic or international monopolies; and providing all people of the United States with (i) high-quality health care; (ii) affordable, safe, and adequate housing; (iii) economic security; and (iv) clean water, clean air, healthy and affordable food, and access to nature.” (Pgs 13 e 14, linhas 10 a 25 e 1 a 3, respectivamente).
Como se pode ver, a Resolução traz elementos que envolvem justiça social e racial, política sindical, entre outros aspectos. Trata-se de uma carta de intenções com tudo que seria desejável. Cabe destacar que não tem força de lei e se fosse aprovada seria non-binding. Assim, me parece que esse documento é mais uma peça de comunicação, de relações públicas que uma tentativa séria de lidar com o problema das mudanças do clima.
Não há nenhuma consideração sobre como se pagaria por esses desejos. Na lista de FAQs da Resolução consta que um tributo sobre carbono estaria “off the table” a não ser que estejam primeiro disponíveis ao grande público opções limpas e viáveis para que as pessoas optem pelo baixo carbono. Como viabilizar a existência dessas opções? Com dinheiro do contribuinte, ou seja, aumentando o papel do governo na economia. Fiquei atônita com a seguinte frase: “so the question isn’t how will we pay for it, but what will we do with our new shared prosperity.” (FAQ, pg 3).
Sobre um mercado de cap and trade, no FAQ fica claro que não se contará com mercados para viabilizar essa transição.
Confesso que eu fiquei chocada com a superficialidade e quase irresponsabilidade com que o tema seriíssimo das mudanças do clima foi tratado na Resolução.
Eu só espero que as pessoas na política americana que levam o tema a sério – e são muitas, felizmente – possam elevar a conversa e retomar a discussão sobre caminhos econômicos para viabilizar a transição para uma economia de baixo carbono. Sem a discussão séria do “como” não chegaremos a lugar nenhum.
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Em minha opinião, uma das mais belas passagens da literatura é esse parágrafo inicial de “Um conto de duas cidades” (*) de Dickens, um dos meus autores preferidos:
“Aquele foi o melhor dos tempos, o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós […]”
Sempre me lembro dessas palavras quando o tema é mudança do clima.
(*) A Tale of Two Cities, título em inglês.