
Estou aqui na COP 23 em Bonn acompanhando as discussões globais sobre mudanças climáticas. Essa é uma conferência voltada à elaboração dos detalhes técnicos envolvendo o Acordo de Paris, como conexão entre os diversos mecanismos de precificação de carbono e como medir os avanços das NDCs.
Participei hoje de uma discussão com dois governadores americanos (de Oregon e Washington, ambos do partido democrata) e quatro representantes dos governadores dos estados de Maryland e Massachusetts (ambos do partido republicano), Colorado e Nova York (ambos do partido democrata). A mensagem deles na conversa ficou clara: muitos estados americanos estão comprometidos com a agenda climática de maneira independente da posição do governo federal, em um esforço bipartisan (ou seja, envolvendo membros dos dois partidos). Inclusive foi mencionado que o subnacional (menção ao poder dos estados e municípios) é, na verdade, supranacional (no sentido de que é mais forte que o governo federal). Falei sobre isso aqui , aqui e aqui.
Qual a mensagem principal desses estados?
Segundo eles, há um entendimento de membros dois partidos de que mudanças climáticas não são uma questão política, mas científica. Nesse sentido, já tem havido – e haverá cada vez mais – esforços subnacionais no sentido de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Cabe destacar que o Regional Greenhouse Gas Initiative (RGGI) – mercado de carbono associado às emissões do setor elétrico envolvendo os estados de Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, New York, Rhode Island, e Vermont – anunciou em agosto de 2017 uma redução adicional de 30% nas emissões de carbono do setor até 2030, relativo ao ano de 2020. Outra iniciativa bastante comentada foi a Transportation and Climate Initiative (TCI) – acordo entre 11 estados americanos (Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, New Jersey, New York, Pennsylvania, Rhode Island e Vermont), e do Distrito de Columbia, para desenvolver uma economia baseada em energias “limpas” e reduzir as emissões do setor de transporte. Outro destaque é o Pacific Coast Collaborative (PCC), envolvendo os estados de Alaska, British Columbia, California, Oregon e Washington – que combinados representam uma população de 54 milhões de pessoas e um PIB de US$ 3 trilhões – que se juntaram para formar uma mega região orientada para inovação, energia e sustentabilidade.
Foi também muito comentado o avanço que esses estados têm feito em incentivar o desenvolvimento de carros elétricos, energias renováveis, processos de precificação de carbono e foco grande em infraestrutura resiliente às mudanças climáticas. Um estudo de Georgetown Climate Center aponta que nos Estados Unidos, entre 2011 e 2014, a geração de energia elétrica solar fotovoltaica cresceu 577% e a eólica, 40%. O Governador Inslee de Washington mencionou que a chamada “economia verde” tem feito o PIB do estado dele crescer o dobro da média nacional.
Mark Twain, em “The Czar´s Soliloquy”, definiu patriotismo como sendo
“loyalty to the Nation all the time, loyalty to the Government when it deserves it.”
Talvez vários estados Americanos estejam demonstrando, na prática, que buscar soluções econômicas para as mudanças do clima seja uma das verdadeiras expressões do patriotismo que caracteriza essa nação, mesmo estando em desacordo com seu Presidente.
(*) Frase dita pelo Governador Jay Inslee, de Washington, hoje aqui na COP23.
Para saber mais:
http://pacificcoastcollaborative.org