
No evento realizado hoje em São Paulo pelo GVces e a Global Challenges Foundation, discutimos as várias facetas da conexão entre a governança global e a governança local e qual o papel da governança internacional na canalização de recursos para a Economia Verde.
A conversa no painel foi muito interessante, mas eu gostaria de destacar uma experiência bem-sucedida de descarbonização de portfolio apresentada por um dos participantes do painel.
O que é descarbonização de portfolio?
A descarbonização da carteira refere-se a esforços sistemáticos dos investidores no sentido de alinhar suas carteiras aos objetivos de uma economia com baixa emissão de gases de efeito estufa (apelidados de “baixo carbono”). Inclui, mas não está limitado a: (i) esforços no sentido de reduzir a pegada de carbono da carteira de investimentos; (ii) aumentar investimentos em áreas como energias renováveis; (iii) retirar capital de atividades econômicas com alto consumo de energia; e (iv) incentivar empresas e outras entidades a reduzir as suas emissões e apoiar a transição para uma economia de baixo carbono.
A experiência do AP4
Mats Andersson, vice-presidente da Global Challenges Foundation (https://globalchallenges.org/) e ex-presidente do Fundo de Pensão da Suécia (AP4), contou como foi bem-sucedido o processo de descarbonização do portfolio do fundo, iniciado em 2012, apenas com algumas empresas investidas.
Eles decidiram iniciar esse processo porque entenderam que as mudanças climáticas terão impacto material sobre o resultado do fundo no longo prazo. Nesse ponto, eles não estão sozinhos, como apontei nesse post aqui. Um ponto da apresentação dele em particular merece destaque: mais do que avaliar volatilidade como medida de risco (bem tradicional em finanças), eles consideram também a perspectiva de perdas permanentes de valor econômico como conceito de risco. Essa segunda ideia faz muito sentido para um fundo de pensão que precisa ter uma expectativa de longo prazo sobre seus ativos. As mudanças climáticas vão afetar os drivers de valor das companhias e para algumas, isso pode resultar em valor econômico menor.
No processo de descarbonização, eles buscaram analisar a pegada de carbono das empresas investidas, comparando com a pegada de carbono de empresas do mesmo setor. Aos poucos, foram selecionando empresas com bom desempenho econômico-financeiro e menor pegada de carbono (desinvestindo de algumas e investindo em outras). Os resultados financeiros dessa migração do portfolio foram tão bons que um ano depois o Conselho autorizou fazer o mesmo para todas as empresas do portfolio.
Como a operação foi bem-sucedida e não houve trade-off entre menor pegada de carbono e retorno financeiro, em 2014 o fundo estabeleceu a iniciativa chamada Portfolio Decarbonization Coalition (PDC), uma parceria do fundo com a Amundi Asset Management, o CDP (Carbon Disclosure Project) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Atualmente, a PDC tem 27 membros, representa US$3,2 trilhões de ativos sob gestão e tem um compromisso de descarbonizar US$ 600 bilhões de investimentos.
Duas frases do Sr. Andersson ditas no painel de hoje merecem ser aqui reproduzidas:
“Sustainable investments are drivers for higher returns at a lower risk”
“There is no conflict between returns and sustainability”
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Para saber mais: