Desde a campanha presidencial, Donald Trump vem se declarando contrário ao envolvimento dos Estados Unidos com esforços supranacionais ligados ao tema das mudanças climáticas, em particular com os esforços das Nações Unidas.
Em seu “Contract with the American Voter”, o plano para os 100 primeiros dias de seu mandato, no ponto 7 ligado à agenda de proteção aos trabalhadores americanos, Trump diz que vai cancelar bilhões de pagamentos aos programas ligados às mudanças climáticas sob o guarda-chuva da ONU e usar os recursos para corrigir problemas ligados à infraestrutura de água e ambiental dos Estados Unidos. A princípio, e analisando com base somente nesse ponto, talvez Trump estivesse querendo redirecionar os recursos antes destinados a esforços supranacionais para investimentos domésticos com claras conexões com reduções de emissões de gases de efeito estufa (GHG na sigla em inglês).
Os maiores emissores de GHGs são (considerando emissões absolutas – quando se considera per capita, a análise fica diferente):

Fonte: WRI para dados de 2012 http://www.wri.org/blog/2015/06/infographic-what-do-your-countrys-emissions-look
Quanto da agenda ligada às mudanças climáticas retrocederia em função do fator Trump?
Não se sabe, é claro. Mas alguns elementos podem ser considerados:
Os Estados Unidos são o segundo maior emissor de GHG, atrás somente da China. A não participação nas discussões globais sobre o tema de uma liderança importante como os EUA, seria uma perda relevante no chamado “thought leadership”, assim como dos recursos (os tais bilhões que serão redirecionados para o mercado doméstico) que os Estados Unidos aportariam na ONU. Aí haveria uma perda significativa. Entretanto, se esses recursos fossem destinados a projetos nos Estados Unidos ligados a energias mais limpas ou infraestrutura verde, o assunto mudanças climáticas talvez não perdesse tanto. Só o tempo dirá que decisões o governo federal americano tomará.
Também, por mais que Trump tenha defendido na campanha o uso de carvão limpo e avanços em óleo e gás, isso só acontecerá se fizer sentido econômico para empresários e investidores. Os menores preços de gás de xisto têm levado a menores preços e demanda por carvão também. E os preços associados a combustíveis fósseis têm caído.
O relatório sobre o outlook global do setor energético publicado em novembro de 2016 pela International Energy Agency (IEA) aponta crescimento dos investimentos globais em fontes renováveis de energia e queda dos investimentos em energias fósseis. Também caiu o total global de subsídios para combustíveis fósseis como resultado da queda do preço do petróleo e reformas tributárias em diversos países com o objetivo de remover tais subsídios. O relatório aponta que está havendo uma transformação global rumo às energias renováveis. Desenha o cenário 2040 em que 60% de toda nova capacidade de geração de energia terá vindo de fontes renováveis. O renovável tende a ser o novo business as usual.
Os investidores já estão antenados à essa tendência. Como apontei em post anterior, as empresas ligadas à exploração de petróleo já consideram essa tendência, assim como investidores que não podem, em função de seu dever fiduciário, ignorar mais os riscos ligados às mudanças climáticas. Por exemplo, o BlackRock, maior casa gestora de recursos do mundo, emitiu um relatório recomendando a investidores que considerem o risco climático em suas análises. O movimento de investidores no sentido do desinvestimento em ações de empresas expostas aos riscos climáticos já envolve 400 instituições, incluindo os dois maiores fundos de pensão da California (CalPERS e CalSTRS) e um fundo soberano da Noruega, além de 2.000 investidores pessoas físicas, somando, no total, cerca de US$2,6 trilhões. O Financial Stability Board, na Basileia, tem uma força tarefa liderada por Michael Bloomberg para melhorar o reporte de informações ligadas a clima por empresas listadas em bolsa. Não que viveremos uma era sem petróleo: fontes fósseis continuarão a ser necessárias como recursos energéticos, mas terão que conviver com soluções energéticas mais limpas. Com muita probabilidade, não serão a base da matriz energética mundial. Segundo reportagem da The Economist, o custo das baterias em veículos elétricos caiu 80% desde 2008; os custos de energia eólica offshore na Europa caiu mais da metade nos últimos três anos. A energia solar está se aproximando do gás e do carvão em termos de atratividade econômica. Com essa tendência, embora Trump queira fazer crescer os investimentos em fósseis, há dúvidas se o mercado privado verá racionalidade econômico-financeira e investirá nesse caminho.
Outro ponto que merece destaque é que os estados e cidades americanos são relevantes para o avanço da agenda climática no país, já que controlam poder legal e político para decisões ligadas às emissões. Um estudo publicado pelo Brookings Institute, um think tank localizado em Washington, aponta que 33 estados americanos e o Distrito de Columbia têm perseguido políticas de decoupling, ou seja, crescimento econômico sem aumento de emissões de gases de efeito estufa. Em conjunto, o PIB cresceu 22% no período e as emissões caíram 12%. Essa é uma discussão recorrente nos meios políticos e diplomáticos envolvidos com o tema das mudanças climáticas: a de que não se pode prescindir de emissões de gases de efeito estufa para haver crescimento econômico.
Entretanto, além dos 33 estados americanos, 35 países (incluindo os Estados Unidos) vêm conseguindo crescer ao mesmo tempo em que reduzem suas emissões. Isso acontece por crescimento de investimentos em eficiência energética, em fontes renováveis e fontes mais limpas, como gás natural. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB dos EUA vis-à-vis as emissões desde 2000:

Há também 16 estados que tiveram crescimento econômico e crescimento de emissões. Os fatores que influenciam o sucesso ou insucesso do decoupling são os investimentos em mudança tecnológica, preferência dos consumidores, composição econômica do estado (mais indústria ou mais serviços) e, claro, a matriz energética do estado. Enfim, longe de ser um estudo conclusivo sobre o tema, o que o estudo mostra é que há estados americanos que provavelmente seguirão com sua agenda de redução de emissões, a despeito das decisões do governo federal.
O avanço da discussão sobre o tema nos Estados Unidos dará um importante tom para as discussões internacionais. Entretanto, China e Europa seguirão avançando com o acordo de Paris. O Acordo foi ratificado por 127 nações, em um processo histórico sem igual de convergência rumo à redução das emissões. Se Trump realmente decidir por não investir no avanço da agenda ligada à mitigação das mudanças climáticas, estará na contramão da história. Mas, parece, os Estados Unidos serão representados por estados que seguirão investindo na construção de uma economia mais sustentável.
Para saber mais:
Clique para acessar o O-TRU-102316-Contractv02.pdf